28 Nov 2021


A pergunta que não quer calar

Publicado em Editorial
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Tardou mais não falhou. O presidente Jair Bolsonaro vinha muito bem nas últimas semanas. Sua moderação estava contribuindo para a pacificação do debate público. Mas, voltou a chocar muitos brasileiros, principalmente os profissionais da comunicação, e ainda estampar manchetes de sites e publicações impressas internacionais.
No domingo (23), Bolsonaro, enquanto se aproximava da Catedral de Brasília, o jornalista Daniel Gullino, repórter do jornal O Globo, perguntou sobre cheques no valor total de R$ 89 mil que teriam sido depositados entre 2011 e 2016 pelo ex-assessor Fabrício Queiroz e pela esposa dele, Márcia Aguiar, na conta da primeira-dama, Michelle Bolsonaro. Primeiramente, o presidente disse que não iria responder. Depois, Bolsonaro  afirmou aos jornalistas: "Eu vou encher a boca desse cara na porrada". Na sequência, o presidente emendou: "Minha vontade é encher tua boca na porrada". Tudo isso, num evento intitulado de “Vencendo a Covid-19”. Vencendo, mesmo? Já são mais de 118 mil mortos e 3,7 milhões contaminados. O Brasil é o segundo País mais atingindo do mundo.
Políticos, personalidades e a mídia internacional repercutiram a ameaça de agressão feita por Bolsonaro, como a CNN norte-americana, Fox News, The New York Times, os jornais britânicos, The Guardian, Independent, além dos principais jornais da Argentina, o Clarín e o La Nación. Até na Índia, o India Today e o The Hindu Times também destacaram o ocorrido.
O governador João Doria, em coletiva de imprensa, na segunda (24), comentou sobre o assunto: “Não me lembro, ao longo da minha existência, que algum presidente da República tenha dito isso, frontalmente, a um jornalista que gostaria de agredi-lo e esmurrá-lo fisicamente. É uma posição lamentável e triste para alguém que ocupa a presidência da República do Brasil”. E ainda relembrou o inesquecível 'cala a boca já morreu' da ministra do Supremo Tribunal de Justiça (STF), Cármen Lúcia, quando ela, num histórico voto, derrubou a censura.
Como se a ameaça de agressão física não bastasse, perfis bolsonaristas veicularam um vídeo com legenda fake para sugerir que o presidente teria sido provocado. O boato acabou impulsionado por diversos blogs governistas. Os blogs Senso Incomum e Terra Brasil Notícias publicaram textos baseados no vídeo com a legenda fake e afirmaram que o repórter teria dito a Bolsonaro a frase “vamos visitar sua filha na cadeia”. O áudio, no entanto, mostra claramente que alguém diz “vamos visitar nossa feirinha na catedral”. Depois de espalhar a falsa versão, as duas páginas se retrataram. Bolsonaro e seu filho e vereador do Rio de Janeiro, Carlos Bolsonaro, publicaram vídeo do incidente em suas redes sociais – sem a legenda falsa. “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará!”, diz a descrição do vídeo, em referência a um versículo da Bíblia que Bolsonaro usa em contextos políticos desde a campanha.
Bolsonaro ainda relembrou do seu “histórico de atleta” e de ter tido uma forma mais amena da Covid-19: “quando pega num bundão de vocês, a chance de sobreviver é bem menor”, disse se dirigindo aos jornalistas. O ataque não caiu bem, afinal seriam todos “bundões” os mais de 117 mil mortos, por não terem sobrevivido à doença? Uma pergunta, seja ela qual for, não deve causar uma reação tão truculenta nem em um presidente da República, nem em político algum, ainda que o assunto aborreça. Há sempre uma maneira elegante ou no mínimo educada, em respeito ao profissional, para dizer que não irá responder. A escolha pelas ofensas, sem se explicar, recorrendo à selvageria, por tentativa de intimidar, é inútil. A pergunta incômoda continuará a ser feita, até que haja uma resposta.

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