28 Nov 2021


A politização da vacina

Publicado em Editorial
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No final de setembro, quando o governador João Doria anunciou que o início da aplicação da CoroVac, vacina contra a Covid-19, desenvolvida pelo Instituto Butantan, em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac Biotech, estava previsto para começar no próximo dia 15 de dezembro pelo Sistema Único de Saúde (SUS), milhões de paulistas e brasileiros se animaram com a perspectiva de, muito em breve, ser iniciada a imunização em massa contra o vírus que já levou à morte mais de 156 mil pessoas no Brasil, provocou tanto prejuízo à economia nacional e ainda tem deixado muita gente, idosos principalmente, trancados em suas próprias residências há meses.
Na terça (20), os brasileiros foram dormir empolgados com a notícia de que o Ministério da Saúde compraria 46 milhões de doses da CoronaVac, inclusive com nova Medida Provisória para disponibilizar R$ 2,6 bilhões até janeiro, mas acordaram com a informação de que o presidente Jair Bolsonaro desautorizou o ministro Eduardo Pazuello e jogou gelo no otimismo da véspera.
Na quarta (21), todas as expectativas foram frustradas. Bolsonaro afirmou que o governo federal não comprará a vacina CoronaVac. De acordo com ele, antes de ser disponibilizada para a população, a vacina deverá ser “comprovada cientificamente” pelo Ministério da Saúde e certificada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “O povo brasileiro não será cobaia de ninguém. Não se justifica um bilionário aporte financeiro num medicamento que sequer ultrapassou sua fase de testagem”, escreveu Bolsonaro em publicação nas redes sociais.
Com isso, ficou evidente que a disputa política eleitoral ficou acima do interesse nacional. Bolsonaro já tem se dedicado ao projeto de reeleição em 2022 e, como Doria poderá ser seu rival na disputa pela presidência, acordos e negociatas com o governador paulista, ainda que em prol dos brasileiros, como o caso da CoronaVac, não devem ganhar força, podendo, até mesmo serem minados.
O secretário executivo do Ministério da Saúde, Elcio Franco, informou que “houve uma interpretação equivocada da fala do ministro da Saúde” e não houve qualquer compromisso com o governo do Estado de São Paulo no sentido de aquisição de vacina contra a Covid-19. Franco esclareceu que é “mais uma iniciativa para tentar proporcionar vacina segura e eficaz para a nossa população, neste caso como uma vacina brasileira” e se estiver disponível antes da vacina da AztraZeneca/Oxford ou da Covax. “Não há intenção de compra de vacinas chinesas”, ressaltou.
O fato de a vacina ser elaborada em parceria com laboratório chinês, também atrapalhou as negociações. Bolsonaro possui “fortes laços” com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que acumula desafetos com a China. O interesse em alinhar o Brasil com os Estados Unidos é forte, ainda que isso possa atrapalhar o agronegócio nacional, que depende, em grande parte, da própria China.
Além de tudo isso, a CoronaVac, ainda, aguarda análise técnica e aprovação da Anvisa, o que pode não sair tão rápido quanto o previsto. Ou seja, mais uma vez os brasileiros vão amargar o peso da influência política e das pretensões eleitorais numa decisão de caráter sanitário, que envolve a saúde e o destino de milhões de vidas.

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