30 Mar 2020


Educação: o desafio é muito maior

Publicado em José Renato Nalini
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Não causou surpresa para quem é atento, a notícia de que todas as escolas poderiam oferecer melhor performance no ENEM, o exame nacional do ensino médio. Em termos de aproveitamento do ensino, ou seja, de aprendizado, caminham deficitariamente tanto as públicas como as particulares.
A que se deve o insucesso? À falta de estrutura material? Não pode ser, porque há unidades de ensino sofisticadas, com tudo aquilo que a tecnologia pode propiciar ao seu cliente, o aluno. Ao despreparo do pessoal? Não. Há excelentes professores tanto na educação do governo como na escola paga, de escolha dos pais dos alunos.

O que explica o resultado pífio?

Surgirão inúmeras versões, pois assim como no futebol e na medicina, o brasileiro se especializou e todos têm a chance de opinar. Também entro nesse terreno, como alguém que tentou investir no sistema e sentiu na pele e na consciência a gravidade do problema.
A escola brasileira está ultrapassada. Raríssimas as exceções ao universo da mesmice, do trilhar os mesmos caminhos, na cegueira que não vê o mundo mudar, na surdez de quem não ouve o clamor do alunado.
Ninguém mais suporta a aula prelecional, mera repetição de conteúdo que pode ser encontrado na web de maneira muito mais atraente e atualizada do que a oferecida ao estudante. Ele ainda se enfileira, sentando-se um atrás do outro. A não ser a turma do “gargarejo”, os demais enxergam em primeiro plano a nunca do colega à sua frente.
Como se interessar por uma aula oral, se o mundo fantástico das redes sociais propicia percorrer o mundo e suas fantasias, se o Google responde em segundos a qualquer questão, se os exemplos que o mundo do consumo oferecem não correspondem ao sonho de uma juventude imersa na 4ª Revolução Industrial?
Fica difícil convencer o jovem de que só o estudo lhe abrirá as portas do êxito profissional, quando Steve Jobs, Marck Zuckeberg e outros tantos vencedores foram péssimos alunos, nenhum deles conseguiu obter o termo final da escolarização formal.
A escola não segura o jovem, porque é desinteressante, chata, insossa e não consegue comprovar que o conteúdo do ensino importará na busca incessante pela felicidade.
O educador é aquele que enxerga em cada educando uma individualidade que mereceria atenção exclusiva, ouvidos prontos para escutar as angústias, controlar a ansiedade, atenção carinhosa para saber que não é fazendo com que o aluno decore uma série de informações que a escola o tornará alguém mais feliz.
Por óbvio, não existe aquela felicidade ideal, a utopia que acalenta a maior parte da humanidade e que a faz prosseguir, mesmo diante de tantos desatinos. Mas tentar identificar as suas inclinações, aquilo que lhe dá prazer e aquilo que irrita profundamente o seu âmago, tudo isso parece não fazer parte de uma educação mais preocupada com rankings, com avaliações, com a mensuração que seria o atestado do êxito no empreendimento.
Educar, se levado a sério, tornaria o Brasil o paraíso que os portugueses acreditaram haver descoberto em 1500. A terra dadivosa, em que se plantando tudo dá. Mas a terra que, entregue à sanha insensível de uma elite gananciosa e ignorante, destrói rapidamente o seu patrimônio natural. E nessa empreitada bem sucedida, assassina também a ilusão de uma juventude que só recebe mensagens preordenadas a torna-lo um bom consumidor. Alguém que vai procurar saciar seu desencanto comprando o mobile de última geração. Usando a roupa de grife da última temporada. Berrando no show da atração internacional que se digna aparecer nesta terra para uma noitada cujo ingresso tem o custo equivalente ao salário mínimo. E que não desanima aqueles que permanecem na fila dias antes, só para urrar e dizer que está na moda e que sabe o que é bom lá fora.
Li recentemente que o MEC deveria ser extinto, artigo de um ex-ministro. E que a lei do Currículo do Ensino Médio deveria ser revogada, em texto assinado por ex-secretário. Pessoas que conhecem as entranhas da Administração Pública. Mas não vejo a manifestação de famílias, de associações de pais e mestres, de ONGs, de instituições que deveriam se empenhar em prover a República de gente lúcida e decente.
Enquanto não se perceber que o que falta ao Brasil é vergonha, é brio, é caráter, é a tão decantada ética, patriotismo, amor à família, à terra e à História, não se conseguirá formar uma geração capaz de mudar o triste e sombrio panorama deste continente heterogêneo, que só tem como núcleo comum o desalento e a falta de perspectivas, tamanha a insensatez predominante nas mais elevadas esferas.

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