30 Mar 2020


A maior de todas, é a que mais falta

Publicado em José Renato Nalini
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A doença do mundo é a falta de amor. Parece piegas falar de amor quando a humanidade se debate diante de três grandes angústias: as mudanças climáticas, que podem acabar com ela, a falência da Democracia Representativa e os impactos da 4ª Revolução Industrial. Mas para quem não perdeu de todo a sensibilidade, o diagnóstico vale. O que falta ao ser humano é a efetividade do amar.
Para os cristãos, o amor tem nome. É “caridade”, sinônimo de amor, bem, bem-fazer, beneficência, benevolência, bondade, compaixão, complacência, condescendência, filantropia, generosidade, liberalidade, piedade e tantos outros verbetes, nesta maravilha exuberante que é a língua portuguesa. Ideia aproximada à de misericórdia, ideia aproximada à de clemência, comiseração, compaixão, dó, graça, indulgência, perdão e piedade.
A caridade é uma das três virtudes teologais cristãs, ao lado da fé e da esperança. Há um texto muito eloquente, de Paulo, na Primeira Epístola aos Coríntios, capítulo XIII, frequentemente lido em matrimônios. Mas para esta reflexão, a caridade é o instrumento mais eficiente para se honrar uma promessa do constituinte de 1988: o de respeitar a dignidade humana.
Pois “a caridade é a luz que nos revela a coisa mais extraordinária do mundo: o “outro”. Nem sempre conseguimos essa prodigiosa banalidade, e no meio da multidão sentimo-nos isolados, únicos, como se todas as pessoas que vemos não passassem de meras sombras, de sinais saídos de nosso interior”. É Gustavo Corção quem fala, no seu livro “A Descoberta do Outro”. Mostra o quanto estamos longe de concretizar aquilo que, no discurso, professamos. “A boa educação ensina a respeitar os gestos e as palavras dessas pessoas, dentro de um limite razoável, sendo uma espécie de treinamento numa pista de dificuldades. Assim como aprendi a me desviar dos postes e a segurar no corrimão da escada, aprendi também a dizer “com licença” e “faz favor”. As pessoas são como pedras, como troncos de árvore, como acidentes em meu caminho, ou então são coisas de mim mesmo que circulam fora de mim para melhor me servir. O eu fica no centro de um universo escuro, em volta estão os corpos tributários: este traz-me café, aquele a carícia. Há uma continuidade entre tudo e o meu eu, uma ligação, como se eu estivesse mergulhado num banho tépido formado pelo universo inteiro”.
Há essa tendência egoística do humano, que parece ter nascido para ser servido por todos os outros. Mas é “a luz da caridade que opera uma separação: põe-nos diante do outro. Separa-nos para nos livrar da insuportável solidão”. E o faz com maestria, pois “a caridade não gosta de abstrações, de ideias gerais, mas de vinho e de pão; de carne e de sangue. Não entende de instituições, mas de contatos vivos. É corpo que se entrega e sangue vertido pelos amigos; é beijos nas escamas dos leprosos e saliva misturada com terra dos caminhos”.
Absorver esse conceito de caridade é algo quase impossível, diante da renitente imperfeição humana. O próximo, para nós, não está tão perto. O semelhante não guarda tanta analogia comigo, que me exalto e que me avalio com lentes superdimensionadas, mas que menosprezo naqueles que minha prepotência considera inferiores e, portanto, desiguais.
Em nossa frágil e efêmera caminhada por este planeta sofrido, o mais comum é esbarrarmos “em sombras compactas, pesadas e mornas. E cada um quer devorar o outro numa luta febril, num corpo a corpo mudo e obstinado de dois cegos que se atravancam num caminho estreito”.
Há prenúncios de que isso se transforme algum dia? Entretanto, depende exclusivamente de cada um de nós.

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