30 Mar 2020

Publicado em José Renato Nalini
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Vivemos imersos no passado, eis que sequer o presente existe. Mal se pensa no instante do “agora” e ele “já se foi”. Tudo é passado. Mas o que nos mantém vivos e a caminhar é aquela dimensão que nem sequer se sabe se nos será oferecida: o imponderável futuro.
Zygmunt Bauman, o prolífico pensador que nos instiga a meditar, algo que nem sempre tem futuro na rotina das requisições contemporâneas, afirma que “o futuro está cheio de surpresas”. E de surpresas também é formado o outro. Aquela pessoa em quem se confiou. Aquela em quem se depositou esperanças. E que, não raro, nos frustra.
É quase impossível aceitar no outro a sua absoluta alteridade. Quem aposta no amanhã nutre-se de expectativas, mas não tem consciência do abismo entre o futuro previsto e o futuro que será. Quando nos decepcionamos, os espíritos considerados “fortes” mergulham numa atividade de superação, de transcendência, de deixar para trás o que nos magoou.
Viver é apenas isso. Caminhar quase às cegas, tateando em apoios que muita vez encontramos em nós mesmos, como o Barão de Munchausen, que levitava segurando os próprios cabelos, num mundo ainda não consumado de expectativas e de experimentação. Mas nem sempre atinamos que o quase certo é o mundo dos eventos ocorridos. Um mundo no qual se tornou impossível agir responsavelmente. Não posso mudar o passado, embora tente às vezes mudar as versões. Mas eu não sou necessário ao passado. Em princípio, eu nem sequer estou lá, a não ser pelas minhas memórias.
As memórias são refeitas, reconstruídas, de acordo com aquilo que nos motiva a lembrar. Quando carentes, nos agarramos a momentos fugazes em que fomos amados. Inseguros, nos lançamos ao colo materno. Com o qual já não se pode contar. Refugiamo-nos em paisagens familiares, naqueles espaços amoráveis em que passamos horas felizes. Ambos já não existem: nem os lugares, destruídos pela sanha de mutação que nesta Pátria desmemoriada elimina, impunemente, a paisagem e acaba com os nossos parâmetros visuais. Nem as pessoas que nos amaram. Chamadas para a eternidade. Sem mandar notícias para dizer que nos esperam.
Não temos nenhuma certeza, nenhuma segurança, de que o futuro projetado corresponderá às nossas expectativas. Essa a perigosa aventura de viver. Caminhamos numa corda bamba, numa altura infinita, sem qualquer rede de proteção e sem saber qual o momento em que aquele que segura uma das pontas a soltará, para que mergulhemos no desconhecido. Não nos iludamos: o futuro não depende de nós. Podemos sonhá-lo, projetá-lo, esperá-lo. Só isso, nada mais.

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