27 Sep 2020


A banalização da vida

Publicado em Editorial
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Desde o início da pandemia do novo coronavírus os brasileiros têm assistido, sequencialmente, formas de mitigar os efeitos da pandemia da Covid-19 no País. Seja pelo presidente Jair Bolsonaro que, por diversas vezes minimizou os efeitos do vírus, que já matou no mundo mais de 701 mil pessoas, chegando a quase 100 mil apenas no Brasil, se referindo como “gripezinha”, que a pandemia era uma “fantasia”, que o poder destruidor do vírus havia sido “superdimensionado”, afinal, “e daí?" e “todos vão morrer um dia”, seja pelos políticos, empresários e até mesmo pelos brasileiros.
Salvar a economia ou salvar vidas? Optou-se, ainda que, não escancaradamente, salvar a economia. Afinal, o ano é eleitoral. Falências, desemprego, insatisfação e desaprovação, por parte de empresários e da população em geral, poderia colocar em risco a reeleição de muitos prefeitos e, definitivamente, estragar planos políticos. Então, o discurso foi ajustado: “vamos salvar vidas e a economia também”. Foi anunciada uma retomada consciente, equilibrada, responsável, ponderada, não faltaram adjetivos positivos, por parte dos políticos, ao liberar a volta às ruas. Foi definido, então, que seria o “novo normal”.
Uso de máscaras obrigatório, alguns horários reduzidos e a “vida que segue”. No auge do número de casos e mortes no Brasil, prefeitos e empresários se uniram para a reabertura do comércio, dos restaurantes, bares, clubes, etc. “É o novo normal”, repetem como mantra. “Nosso município está à frente do vírus” ou “estamos preparados”. Essas e outras frases são repetidas a exaustão em lives por muitos prefeitos.
Só que os números não negam. Quando foi completado um mês da reabertura econômica no ABC, 15 de julho, a região já havia registrado o dobro do número de mortes e casos confirmados. No dia 15 de junho, os sete municípios contabilizavam, ao todo, 14.995 casos confirmados e 884 óbitos. Um mês depois, no dia 15 de julho, a região já chegou a marca dos 32.348 casos e 1.454 mortes, segundo dados do Governo do Estado. Somente em um mês, julho, o número de novos casos de coronavírus registrados no ABC aumentou 34%. Em junho, a região teve 14.656 novos infectados, em julho encerrou com 19.595.
Ao mesmo tempo em que se aproxima o início da campanha eleitoral, 15 de agosto, os prefeitos refinam o discurso de que a pandemia está sob controle e que o pior já passou. Enquanto isso, pelas ruas, aumenta o número de pessoas circulando sem máscaras, se aglomerando em bares, restaurantes, academias, salões de beleza, etc. E o distanciamento social já virou quase que démodé. As redes sociais estão lotadas de registros exibindo, sem a menor cerimônia, encontros e muito contato social, seja em festas, celebrações de aniversário, jantares com amigos, familiares, grupos de corrida, bike, etc. Os mais de 1 mil óbitos por dia ou os mais de 50 mil novos casos confirmados por dia no País já não chocam ou impressionam mais os brasileiros.
Muitos, sem escolha, já acostumados a fecharem os olhos para duras, cruéis e tristes realidades do País, como os corriqueiros altos índices de violência, a corrupção generalizada, a falta de saneamento básico, com mais de 48% da população sem coleta de esgoto e, vivendo em um país com um dos piores índices de desigualdade do mundo, está se acostumando, infelizmente, com os altos números de óbitos pela Covid-19, como se fosse apenas mais uma das tragédias de se viver no Brasil e, seguindo suas vidas, normalmente, como se “nada” estivesse acontecendo.

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