15 Dec 2018

Publicado em TITO COSTA
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Leio num jornal que uma pessoa fica velha quando a sociedade decide que ela ficou velha.  E mais: “Velho não é uma qualidade; é um julgamento. Niemeyer, desenhador de Brasília com Lúcio Costa, foi produtivo e criativo até mais de 100 anos, Quem é que pode dizer que ele “ficou velho”? Ao mesmo tempo, muitos “jovens” não criam absolutamente nada, são puro potencial”.
 O conhecido médico Dráuzio Varella analisa “A Arte de Envelhecer”, (cf. Folha de S. Paulo (13/01/2016). Lembra que aos 50 anos ele já se achava bem distante da juventude. Agora diz que espera ter o privilégio de chegar aos noventa com pleno domínio da razão. Eu posso dizer que já experimento esse privilégio: à beira dos 96 tenho ainda pleno domínio da razão. E, felizmente, trabalhando na minha profissão de advogado com a lucidez e a paciência necessárias para enfrentar os descaminhos da Justiça.  
Ensina-nos o escritor e médico Varella que “o envelhecimento é sombra que nos acompanha desde o momento da concepção, pois o feto de seis meses é muito mais velho que o embrião de cinco dias”. E conclui: “temos que aprender a ser adolescentes, adultos, e a ficar cada vez mais velhos”.
Eu diria que velhice não é defeito, nem doença. Há uma razoável diferença entre estar velho e ser velho. O verbo “estar” soa como a resignação diante do tempo em que se está enfrentando a idade avançada; o verbo “ser” revela o comportamento, a mente, a disposição, a ânimo de viver, o humor de cada um. Claro que tudo depende de vários fatores como o trabalho, a família, os amigos (os poucos que ainda resistem como nós). Dos meus colegas de Faculdade, numa turma de 187, restam-me uns cinco ou seis com os quais ainda mantenho contato. Todos no nível dos 80 ou 90.
Há, ainda, os desencantos que nos acompanham, ao contrário de tantas alegrias que desfrutamos ao longo dos tempos.
A esse propósito lembro um soneto primoroso do Padre Antonio Tomás, cearense ilustre de Araraú (1868-1941), considerado primeiro príncipe dos poetas cearenses. Deixou-nos entre preciosas jóias literárias, o soneto “Contraste” em que nos fala das alegrias do verdor dos anos quando as esperanças nos acompanham e nos animam, ao contrário das desilusões, dos desenganos que nos chegam logo, com a velhice. Depois dispara, nos seus dois tercetos: “Então, nós enxergamos, claramente,/ como a existência é rápida e faláz/e vemos que sucede exatamente/o contrário dos tempos de rapaz:/ os desenganos vão conosco à frente/ e as esperanças vão ficando atrás”.
E Dráuzio Varella lembra-nos, a propósito de diferenças de comportamentos, próprios de cada fase do nosso viver, com o envelhecimento a nos trazer “a aceitação das ambigüidades, das diferenças, do contraditório, abrindo espaço para uma diversidade de experiências com as quais nem sonhávamos anteriormente”. Nesse passo, perfeitamente afinado com o soneto do Padre Antonio Tomás: pois, agora, para o velho, “os desenganos vão conosco à frente, e as esperanças vão ficando atrás”.

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