17 Jun 2019

Publicado em TITO COSTA
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Jorge Andrade tem seu lugar reservado na galeria dos melhores teatrólogos de seu tempo e de todos os tempos, entre nós. E posso dizer com orgulho que colaborou com meu governo na Prefeitura de SBC. Integrou a Secretaria de Cultura e Esportes, então sob o comando de Fernando Leça.  Deixou-nos uma obra teatral que vai percorrer séculos, e faleceu em 13 de março de 1984, com apenas 62 anos de idade.  Dele guardo como preciosa relíquia um exemplar da 1ª edição de seu livro de memórias “Labirinto”, com especial dedicatória a mim e minha saudosa mulher, que transcrevo: “Para Tito e Léa, com a admiração e o respeito profundo do Jorge”.  SBC 06/78.                                      
Na adolescência brigou muito com seu pai que queria fazer dele um homem do campo, do mato, da caça e da pesca. Mas, outro era o mundo de Jorge e por isso escondia-se debaixo da cama ou no alto de um abacateiro para poder proteger seus livros e ler distante das implicâncias paternas. Livro não é coisa de homem, gritava-lhe o pai. Mas Jorge com seus segredos, só de uma coisa tinha certeza: “me vejo sozinho diante do mundo! Estar só é estar comigo mesmo! Por que sair do labirinto, se viver é estar preso nele?”.
Mas a luta do pai com ele não tinha trégua, o que o aproximou de Érico Veríssimo, famoso escritor gaúcho que teve com o pai discórdias semelhantes. A despedida deles foi comovente, o filho correndo atrás do pai, já dentro do trem, para entregar-lhe a linguiça fria envolta em jornal sujo, único bem que levara consigo. Pai e filho nunca mais se viram, pois o velho morreu em São Paulo onde a família não conseguiu localizar-lhe o corpo nem a sepultura. Sumiu no tempo e no espaço.
Uma outra situação, também dramática, ocorreu entre Jorge e seu pai intolerante. Muito a custo de tanto pedido, dignou-se o pai vir a São Paulo assistir à peça do filho rebelde: “A  Moratória.” Terminada a sessão no Teatro Maria Della Costa, na Rua Paim, SP Capital, onde acabavam de ver a peça,  grande sucesso de Jorge e este assim registra o fato em seu livro “Labirinto”: “As pessoas que passam saem do teatro, ele (o Pai) se aproxima de mim enquanto caminhamos  rumo à Avenida 9 de Julho, pára e olha-me com imenso amor, puxando-me para ele e me abraçando. Sua voz sai da garganta montada nos  soluços, tropa xucra da dor: - Eu não sabia, filho. Eu não podia compreender. Peço que me perdoe. Agora, sei que há muitas maneiras de amar a mesma coisa. Nunca li um livro. Sou fazendeiro atrasado, não podia saber que ... ! Perdoe-me, meu filho.
- Não, papai. Não chore, não me aprisione no remorso para o resto da vida”.
Silencioso, meu pai se volta, passa entre os carros estacionados, desaparece.  E Jorge acrescenta: “Não é nos filhos diferentes e sensíveis que as contradições se manifestam! É, portanto, através do pai que eles começam a percebê-las”.
Que melhor final haveria Jorge de desejar para uma longa convivência cheia de tropeços e de equívocos entre ele e o pai.
Jorge Andrade foi um autor importante na literatura teatral do Brasil. Mostrou a decadência dos barões do café, assim como o fim de uma era de prosperidade nas fazendas e nas famílias tradicionais brasileiras. Sua peça “A Moratória” é bem o espelho dessa análise sócio-cultural de uma época de dominação de grupos poderosos de uma sociedade carregada de privilégios, mas em processo de desaceleração, empobrecimento e amargas desilusões. Além de inúmeras peças teatrais sempre em torno do mesmo tema, como “Os Ossos do Barão”, “Vereda da Salvação” e tantas outras, deixou-nos um livro de memórias (Labirinto, Ed. Paz e Terra, 1978) retratando sua vida, seus sacrifícios, seus sonhos, sua luta exatamente contra aqueles que lhe eram mais caros, como o Pai.

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