
José Renato Nalini, que já foi presidente do TJSP (Tribunal de Justiça de São Paulo) e secretário da Educação do Estado de São Paulo, está à frente da secretaria Executiva de Mudanças Climáticas (SECLIMA), criada pelo prefeito Ricardo Nunes, em 2021.
Nalini procura fazer com que as emergências climáticas entrem no radar de todas as demais secretarias, mas também dialoga com a Academia, com o empresariado, com o Terceiro Setor, com a Igreja e com toda a sociedade civil, pois acredita que o aquecimento global, gerador daquilo que já se chamou “mudança climática”, passou a ser chamado “emergência climática” e hoje se denomina “cataclismo climático”, é a maior ameaça para a humanidade. Acompanhe trechos da entrevista.
São Paulo tem metas alinhadas ao acordo da ONU e ao regime do Acordo de Paris. Quais estão atrasadas e adiantadas?
São Paulo possui metas alinhadas ao acordo da ONU e ao regime do Acordo de Paris em diversas medidas, sobretudo no Plano de Ação Climática do Município de São Paulo (PlanClima), onde cada uma das 43 ações está relacionada ao menos a dois Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. Ademais, a cidade de São Paulo está alinhada ao Acordo de Paris de manter a temperatura média global dentro de um aumento máximo de 2°C em comparação aos níveis pré-industriais e mobilizar esforços para limitar esse aumento em 1,5°C , ao passo em que busca a redução até 2030 de 50% das emissões de gases de efeito estufa do município de São Paulo, em comparação aos níveis de 2017, e procura o fortalecimento da capacidade de adaptação da cidade.
Em 2025, foi publicado o 4º relatório de acompanhamento do Plano de Ação Climática de São Paulo, que mostrou 57% dos indicadores com avanço e 86% das ações em andamento, o que corresponde a 37 ações.
O eixo com maior número de iniciativas em execução é o da estratégia Rumo ao Carbono Zero em 2050, que apresenta 13 ações em andamento, de um total de 18. Essa estratégia orienta o município na direção da eliminação das emissões de carbono provenientes de combustíveis fósseis, por meio da adoção de soluções sustentáveis para a mobilidade urbana, da redução da geração de resíduos e do aprimoramento de seus tratamentos, tratando-se de um eixo diretamente alinhado aos compromissos estabelecidos pelo Acordo de Paris.
Além disso, as estratégias “Adaptar a Cidade de Hoje para o Amanhã”, “Mata Atlântica, Precisamos de Você”, e “Gerar Trabalho e Riqueza Sustentáveis” possuem 100% das ações em andamento, contribuindo para o atingimento dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.
Os dados constantes no 4° relatório de acompanhamento são referentes ao ano de 2024. Dessa forma, algumas ações já foram realizadas após a publicação do relatório. No entanto, as ações que constam como não iniciadas no relatório são: regulamentar a adoção de critérios de eficiência energética nas edificações de acordo com os programas nacionais de conservação de energia; instituir Zona Zero Emissão no perímetro do Minianel Viário; instituir legislação de fomento à distribuição de carga fracionada com veículos zero emissões dentro do perímetro da cidade; implantação de uma rede de miniterminais logísticos (MTL) em parceria com a iniciativa privada; incluir no mandato da Autoridade Hídrica Municipal, em processo de estruturação, a realização de reporte periódico de dados de operação e de monitoramento de atividades geradoras de gases de efeito estufa, especialmente em relação a esgoto, pela concessionária dos serviços de água e esgoto e criar o Plano de Contingência de Seca, adotando as medidas para sua operação.
De toda forma, o município vem atuando de forma consistente para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e ampliar sua capacidade de adaptação. Em 2025, além do avanço na execução das ações climáticas, destacam-se três resultados expressivos: a Prefeitura consolidou a maior frota de ônibus elétricos do país, 83 caminhões de coleta de resíduos passaram a operar com biometano, reduzindo significativamente as emissões do setor, e segue em andamento a meta de plantio de 120 mil novas árvores até o final do ano. Esses esforços reforçam o compromisso municipal com a construção de uma cidade mais resiliente.
Nos últimos anos, episódios de chuva extrema, ondas de calor e estiagens severas atingiram a metrópole. O que mudou na estratégia da Prefeitura após o El Niño recente e seus impactos?
Recentemente, em relação aos episódios de chuva extrema e aos eventos do El Niño, a Prefeitura de São Paulo publicou a Portaria do Plano de Prevenção às Chuvas – PPC (Portaria Prefeito – PREF n° 1.759/2025), que surgiu em substituição ao antigo Plano, outrora denominado “Plano Preventivo Chuvas de Verão – PPCV”. Desse modo, as ações de prevenção e resposta do plano tornaram-se contínuas. E, dentre as alterações provenientes da substituição das Portarias, está a vigência do Plano de Prevenção às Chuvas, agora implementado anualmente e de vigência contínua, subdividindo-se em duas fases: fase de preparação, compreendida entre 1º de abril e 31 de agosto e fase de execução, compreendida entre 1º de setembro e 31 de março do ano subsequente.
Além do PPC, em dezembro de 2024 a Prefeitura publicou o Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR). O PMRR concentra as principais ações a serem tomadas pela gestão municipal nos próximos anos para reduzir a exposição da população a riscos hidrológicos e geológicos. Há ações de aprimoramento da governança de riscos, como a criação de um Fundo Municipal para Áreas de Risco e a criação de um Conselho Gestor para Contratação de Projetos e Obras em Áreas de Risco.
O PMRR também planeja iniciativas para mitigar os impactos de eventos extremos, como a instalação de sensores para monitoramento de encostas e microdrenagem, que forneceriam informação em tempo real para o Centro de Operações Integradas de São Paulo (COI-SP), além da melhoria da gestão de resíduos sólidos em áreas de risco hidrológico.
Até 2030 a meta é eletrificar parte significativa da frota de ônibus municipais. Como essa proposta tem avançado?
A cidade de São Paulo tem, desde a Lei Municipal de Mudança do Clima, a obrigação de substituir gradualmente a frota de ônibus por tecnologias menos poluentes, com metas claras de redução de emissões para o sistema de transporte coletivo. Para viabilizar essa transição, a Prefeitura estruturou um modelo próprio de subvenção parcial à aquisição de ônibus elétricos, desenvolvido com instituições parceiras. Esse modelo foi reconhecido internacionalmente, inclusive com o Prêmio Local Leaders Awards, da Bloomberg Philanthropies, na categoria “Transporte Limpo e Confiável”, justamente pelo modelo inovador de aquisição e financiamento de ônibus elétricos, que já viabilizou R$ 6,5 bilhões junto a instituições nacionais e internacionais.
Na prática, o que a Prefeitura faz é utilizar sua capacidade de captar crédito a juros mais baixos para subvencionar a diferença de preço entre um ônibus elétrico e seu equivalente a diesel, respeitando tetos por tipo de veículo e um limite máximo de 85% do valor de aquisição. O operador continua arcando com o valor equivalente ao ônibus a diesel, bem como com os custos de operação, manutenção e infraestrutura de recarga; a propriedade do veículo permanece com a operadora, o que preserva os incentivos à boa manutenção da frota.
Esse arranjo já permitiu contratar R$ 3,5 bilhões em financiamentos com Banco do Brasil, Caixa, BNDES, BID, Banco Mundial e Banco da China. Somando-se a frota a bateria e a frota de trólebus, hoje São Paulo conta com 1.009 ônibus eletrificados, sendo 189 trólebus e 820 veículos a bateria, e a previsão é alcançar aproximadamente 2.200 ônibus elétricos até 2028.
O novo Plano Diretor e o zoneamento têm impacto direto nas emissões. A Prefeitura incorporou estudos para limitar a expansão urbana ineficiente?
A SECLIMA não participou diretamente da revisão do Plano Diretor, portanto, os estudos que fundamentaram as propostas devem ser consultados junto à secretaria responsável (SMUL). O que é possível afirmar é que ainda não há um balanço consolidado sobre o impacto das novas diretrizes nas emissões de GEE. As alterações podem contribuir para a redução ou, dependendo de sua aplicação prática, não gerar os efeitos esperados.
Entre os principais pontos de influência: Mobilidade urbana: diretrizes de adensamento orientado ao transporte público (como EETU e eixos de estruturação) tendem a reduzir deslocamentos longos e a dependência do automóvel, resultando em menor emissão de GEE; Uso e ocupação do solo: regras de verticalização, parâmetros de zoneamento e incentivos ao desenvolvimento urbano influenciam diretamente o consumo energético das edificações e seu perfil de emissões e Infraestrutura verde e resiliência: instrumentos como ZEPAM, ZER e corredores verdes podem ampliar o sequestro de carbono, mitigar ilhas de calor e fortalecer a adaptação climática.
Quais são as metas de arborização, e como será garantida a manutenção – tradicional gargalo da cidade?
No dia 5 de novembro de 2025, a Prefeitura de São Paulo atingiu o marco de plantio de 120 mil árvores desde o início do ano. A ação está incorporada a meta 3 do Programa de Metas, que consiste em realizar o Projeto São Paulo + Verde com o plantio de 200 mil árvores até 2028. Além do plantio, o município estruturou um conjunto mais amplo de iniciativas que fortalecem a arborização urbana e ampliam sua função ecológica. Entre elas estão: criação de 50 bosques urbanos; cultivo de mudas nativas da Mata Atlântica, com plantio de incremento; plantios de compensação e de reparação ambiental; criação de 30 áreas Futuro Verde; regulamentação da Vaga Verde; elaboração do Catálogo de Soluções Baseadas na Natureza; revisão do Manual Técnico de Arborização Urbana; realização do Inventário Arbóreo Municipal; implementação de 1.000 jardins de chuva; entrega de 8 novos parques e requalificação/ampliação de outros 25 parques.
Essas ações ampliam a arborização não apenas em vias e praças, mas em parques, áreas de risco climático, regiões carentes de verde e áreas degradadas – promovendo maior resiliência urbana.
Para garantir a manutenção da arborização a Prefeitura estruturou um conjunto integrado de medidas que inclui o planejamento técnico do plantio, com escolha adequada de espécies, uso de mudas de maior porte e preparo correto do solo, reforçados pela revisão do Manual de Arborização. Ademais, a Prefeitura dispõe de equipes propriamente ditas para a manutenção e acompanhamento dos exemplares plantados, que realizam podas preventivas, irrigação inicial, manejo de pragas e acompanhamento dos primeiros anos de crescimento.
O que tem sido feito em São Paulo quanto ao reuso da água?
São Paulo vem avançando quanto ao reuso da água, principalmente por meio de ações normativas e planejamento. No Plano de Ação Climática do Município, há como ação para futuros estudos incrementar a implementação do Programa Municipal de Conservação e Uso Racional da Água de Reuso em Edificações.
Ademais, o arcabouço municipal inclui uma série de instrumentos que buscam estimular o reuso e uso consciente da água, como a Lei nº 16.160/2015, que criou o Programa de Reuso de Água em postos de serviços, abastecimento de veículos e lavarápidos, reduzindo o consumo de água potável nessas atividades. Complementarmente, a Lei nº 16.174/2015 estabeleceu regras e incentivos para o reuso de água para aplicações não potáveis. Já a Lei nº 17.394/2021 determinou a inclusão de sistemas de captação de água de chuva nos projetos arquitetônicos dos órgãos municipais, ampliando o uso de fontes alternativas no setor público.
A Prefeitura também tem adotado práticas diretas de reuso, utilizando água não potável em atividades como limpeza urbana e lavagem de feiras livres, calçadões, vias e logradouros públicos. Essas ações contribuem para reduzir a pressão sobre o sistema de abastecimento e fomentar uma cultura de uso racional da água. A atuação municipal dialoga ainda com as diretrizes estaduais presentes no Plano Estadual de Recursos Hídricos, que incentiva o reuso, reforçando a importância de soluções integradas para segurança hídrica.
Como está o controle das emissões em São Paulo?
O processo de compensação de emissões na Prefeitura de São Paulo ocorre principalmente por meio de mecanismos vinculados a licenciamento ambiental, intervenções urbanas e exigências setoriais específicas, cada um com regras próprias definidas por suas normas técnicas.
Não existe, até o momento, um sistema único e centralizado de compensação de carbono no município, tema que está em discussão nas agendas de clima, sustentabilidade e finanças verdes.















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