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A cruz e o chicote

Esse รฉ o tรญtulo de um dos capรญtulos mais impressionantes do livro de Laurentino Gomes sobre Escravidรฃo (Ed. Globo livros, vol. I), recรฉm lanรงadoย  e jรก entre os mais vendidos. Todas as suas mais de 400 pรกginas contรชm dados e relatos interessantes sobre a escravidรฃo, essa mancha negra na histรณria do Brasil com reflexos ainda hoje na vida dos negros em nosso paรญs. Da vida, do sofrimento, da revolta que desperta sua simples leitura sรฉculos depois da aboliรงรฃo decretada oficialmente em 1888, mas que na prรกtica persistiuย  por longo perรญodo.
Do leilรฃo de escravos ao tratamento violento a que eram submetidos os infelizes cativos, o autor nos relata umaย  dolorosa e desumana realidade que causa vergonha e uma certa revolta a todos nรณs, ainda hoje, por mais que tentemos explicar e justificar esses fatos. Autoridades eclesiรกsticas da Igreja Catรณlica, entรฃo envolvidas no trรกfico e utilizaรงรฃo do trabalho escravo chegam a nosย  causar uma estranha sensaรงรฃo de descrenรงa nos ensinamentos cristรฃos, ainda hoje, passados alguns sรฉculos dessa vergonhosa pรกgina de nossa histรณria e do envolvimento dela por papas, bispos, autoridades religiosas e cristรฃos em geral. Um exemplo: o padre Antonio Vieira que tem lugar de estaque na histรณria da Igreja, sustentava que aos escravos cabia nรฃo apenas aceitar o sofrimento do cativeiro, “mas se alegrar com a inestimรกvel oportunidade que tinham de imitar os sofrimentos de Jesus no calvรกrio”. Sรฃo palavras suas transcritas no livro, pelo seu autor: “Bem aventurados vรณs que soubรฉreis conhecer a fortuna de vosso estado, e com a conformidade e imitaรงรฃo de tรฃo alta e divina semelhanรงa, aproveitar e santificar o trabalho. Em um engenho sois imitadores de Cristo crucificado porque padeceis em um modo muito semelhante a que o mesmo Senhor padeceu na sua cruz e emย  toda a sua paixรฃo”. Lembra o autor que a Igreja reconhecia o casamento de cativos e defendia a proteรงรฃo da famรญlia, mas isso nunca impediu que maridos e esposas, pais e filhos fossem separados nas transaรงรตes do comรฉrcio de escravos.
E havia “uma moral cristรฃ” da escravidรฃo, como constava de diversos livros e ensaios quase todos de jesuรญtas contribuindo para a organizaรงรฃo e disciplina dessa “moral”. E ainda falavam dirigentes cristรฃos, padres e mesmo bispos, que em vez de condenar a escravidรฃo ainda criaram um projeto escravista dos religiosos, ou seja, ajudaram a construir a base ideolรณgica do regime escravagista no Novo Mundo.
Um certo autor italiano Jorge Benci exerceu importantes funรงรตes com jesuรญtas na Bahia e foi considerado entre o ideรณlogos principais do regime de escravidรฃo. Esse autor e colaborador dos jesuรญtas, sem nenhum pudor sustentava que “um dos efeitos do pecado originalย  de nossos primeiros pais Adรฃo e Eva foi abrir as portas para a entrada do cativeiro entre nรณs”,ย  como se a maldade extrema dos escravagistas tivesse origem na doutrina da Igreja (pรกg. 341). Lembra Laurentino Gomes que “o envolvimento da Igreja com a escravidรฃo era antigo e bem anterior ao trรกfico de africanos para a Amรฉrica”.
Uma bula papal de 8 de janeiro de 1455, “carta rรฉgia do imperialismo portuguรชs” autorizava oย  prรญncipe dom Henrique, o Navegador, a escravizar nรฃo apenas os muรงulmanos, mas todos os pagรฃos entre o Marrocos e a รndia.
Em 1888, ร s vรฉsperas da assinatura da Lei รurea brasileira, o papa Leรฃo XIII condenou a Igreja de forma inequรญvoca por sua adesรฃo ao escravismo.
Para encerrar estas breves anotaรงรตes sobre a escravidรฃo e a participaรงรฃo de Igreja catรณlica, extraรญdas do livro de Laurentino Gomes “Escravidรฃo”, destaco os versos de um concurso de poesiaย  de 1552 de autoria de um traficante de escravos considerado vencedor: “Com fazenda de lei de Graรงa e vida/Divino Xavier, a este contrato/Vos manda e avisa que vendais barato/A responder no cรฉu qualquer partida” (pรกg. 147).