MARCOS CINTRA Opinião

A lição da CPMI do INSS

A democracia repre-sentativa opera sob um equilíbrio delicado: elei-tores delegam poder a re-presentantes que devem interpretar a realidade e agir com responsabilidade. Esse pacto depende de uma sincronia entre fatos e a capacidade política de absorvê-los. Quando a sincronia se rompe, surge a falência representativa – falha estrutural, inicialmente silenciosa, mas potencialmente devastadora.
O caso da CPMI do INSS exemplifica essa ruptura. Após sete meses de investigações sobre fraudes em descontos consignados de aposentados, que afetaram milhões de vulneráveis, o relatório do deputado Alfredo Gaspar (União-AL) foi rejeit-do. O texto propunha indiciamentos de mais de 200 pessoas, incluindo Lulinha (filho de Lula), o banqueiro Daniel Vorcaro (Banco Master), ex-ministros de Lula e de Bolsonaro, senadores e deputados. O presidente da comissão, senador Carlos Viana (Podemos-MG), não votou alternativa, após o STF derrubar a prorrogação na véspera.
Aqui reside a assimetria fundamental. O eleitor vive em fluxo contínuo de informações: reage a vazamentos, prisões e depoimentos, revisa opiniões e alinha sua visão à verdade percebida – no caso, a repulsa ao “roubo de dinheiro de aposentados”. Sua obrigação primordial é consigo: ajustar o mundo interno aos fatos externos. Já o representante opera sob amarras: compromissos e acordos político-partidários e custos reputacionais acumulados. Mudar de posição é risco estratégico; o sistema tende à inércia, enquanto o eleitorado flui. Sua estratégia é manter o posicionamento político histórico, ainda que em descompasso com seus eleitores.
Essa diferença de velocidades gera um intervalo crítico. Em tempos normais, o atraso é gerenciável. Mas em contextos de ruptura, explode. Na CPMI, o escândalo transcendeu ideologias: fraudes consignadas uniram lulistas e bolsonaristas na indignação. Pesquisas como Datafolha (março/2026) indicam reprovação acima de 70%. Contudo, base governista e Centrão rejeitaram o relatório, diluindo responsabilidades e bloqueando conclusões formais.
Edmund Burke alertava: representantes não são delegados mecânicos; devem exercer juízo independente pelo interesse público, mesmo contrariando eleitores momentaneamente. Mas na distorção atual, essa autonomia vira rigidez protetora. O julgamento não evolui; protege-se. Representantes encenam uma identidade política, tornando-se prisioneiros dela e revestindo-se de uma fantasia representativa.
Hannah Arendt complementa: o debate público exige um mundo comum de fatos compartilhados. Sem ele, a ação política desorganiza-se. Na CPMI, negação e bloqueio – como a não votação de requerimentos contra aliados (Flávio Bolsonaro, Ibaneis Rocha) – criam alienação: instituições funcionam, mas desconectadas. O sistema reage minimizando a gravidade, dispersando culpas e impedindo sínteses legítimas. Partidos protegem interesses e retardam aprendizado factual.
O mandato político sustenta-se na crença de alinhamento com a realidade do eleitor. Quando rompe, dissolve-se o sentido do voto. No INSS, suspeitas de corrupção intensificam autopreservação como estratégia ativa e desconfiança. Eleitores ajustam-se rápido; o sistema, devagar. Surge um vácuo representativo: realidade e percepção pública mudam, mas a política fica inerte.
A questão central não é errar, mas corrigir prontamente. Democracia falha quando perde capacidade de rever decisões pela realidade. Burke e Arendt convergem: representação exige juízo aberto ao mundo; política, narrativa factual. Sem isso, esvazia-se, virando forma sem conteúdo.

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