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A morte vestisa e azul

22/09/12

Em meu “Breviรกrio Um Pouco Sentimental”, livro de crรดnicas publicado em 1991, hรก um texto sobre o acidente ocorrido em Goiรขnia em setembro  de 1987, com o Cesio-137. Era um engenho radioativo, mortal, encontrado no lixo, por catadores de papel que, desavisadamente, o acionaram causando consequรชncias desastrosas com mortes e aleijรตes em inรบmeras pessoas em decorrรชncia dos efeitos radioativos daquela peรงa mortรญfera. Destaquei, na crรดnica, o caso da menina Leide das Neves Ferreira, de 6 anos, uma das vรญtimas fatais daquele evento. Jornais da รฉpoca divulgaram o fato contando que a menina Leide morreu no inicio da noite de 24 de outubro de 1987 no Hospital Marcilio Dias, no Rio de Janeiro, por ter ingerido radiaรงรตes do Cรฉsio-137 liberados daquela peรงa em nรญveis nunca antes observados pela medicina nuclear. Diz a nota da imprensa que a menina ingeriu pรณ de cรฉsio  comendo pรฃo com as mรฃos sujas e, no quarto escuro do hospital para onde foi levada, uma aura azulada sobre sua cabeรงa denunciava os terrรญveis efeitos da radiaรงรฃo que continuava, mesmo depois da morte da vรญtima inocente. Os mรฉdicos, segundo anotaram os jornais, aproximavam-se dela com precauรงรฃo para nรฃo se contaminarem tambรฉm. Alรฉm dela, inรบmeras vitimas foram atingidas pelos efeitos da radiaรงรฃo mortรญfera.
Semanas atrรกs deste setembro do ano de 2012, os jornais noticiavam que vรญtimas do Cรฉsio-137 ainda lutam por remรฉdios em razรฃo de problemas burocrรกticos que impedem a distribuiรงรฃo de medicamentos hรก quase dois anos. E assim, vinte e cinco anos apรณs o acidente radioativo de Goiรขnia, vitimas e trabalhadores envolvidos na limpeza dos locais contaminados ainda brigam na justiรงa para obter indenizaรงรฃo e remรฉdios. O governo do estado de Goiรกs criou um Centro de Assistรชncia aos Radioacidentados (CARA), mas a verba de dez mil reais mensais para esse Centro foi cortada por questรฃo burocrรกtica e as infelizes vitimas ficam ao desabrigo de uma atenรงรฃo especรญfica do poder pรบblico que se ausenta sem maiores explicaรงรตes. O acidente radioativo de Goiรขnia รฉ considerado atรฉ hoje um dos maiores do mundo. Mas o pรบblico se esquece, as autoridades se encolhem, e a justiรงa, ora a Justiรงa, todos sabemos de sua lerdeza muitas vezes desumana e indiferente ร  sorte de humildes litigantes. O velho Trilussa, poeta italiano, com suas sรกtiras e alegorias, traduzido no Brasil por Carlo Prina, lembrava que a venda nos olhos da Justiรงa impede que ela olhe para cima, mas pode ver coisas e pessoas  que estรฃo por baixo. Os poetas sabem e sentem o que escrevem. Ridendo castigat mores (brincando criticam-se os costumes).

Tito Costa รฉ advogado, ex-prefeito de Sรฃo Bernardo do Campo e ex- deputado federal constituinte de 1988. E-mail: antoniotitocosta@uol.com.br