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A Negrinha de Lobato

Jรก se contam 70 anos para que a obra de Monteiro Lobato entre para o chamado โ€œdomรญnio pรบblicoโ€. E ganham forรงa as crรญticas sobre seus textos agora sujeitos a cortes que, por certo, irรฃo desfigurar suas criaรงรตes que encantaram geraรงรตes inteiras, como a minhaย  e tantos milhares de leitores ao longo da trajetรณria vitoriosa de seusย  deliciosos escritos.
Sรฃo tantos os ataques sofridos pelo nosso querido escritor taubateano acusado de preconceituoso por expressรตes contidas em seu livro Caรงadas de Pedrinho e em outros de sua autoria. E que agora nรฃo terรก como defender e justificar a razรฃo de sua prosa.
No Sitio do Pica Pau Amarelo, criaรงรฃo sua, viviam a avรด dona Benta, os netos Narizinho, Pedrinho, a boneca Emรญlia e muitos outros. Na cozinha, a โ€œnegra beiรงudaโ€ Tia Anastรกcia, carinhosa para com as crianรงas e adorada por elas. Pois nรฃo รฉ que o nosso Conselho Nacional de Educaรงรฃo, hรก tempos, atendendo a uma denรบncia de funcionรกrio pรบblico de Brรกsilia (certamente inspirado pelo ainda sobrevivo โ€œesquerdismoโ€ mais retrรณgrado) resolveu censurar o livro de Lobato acusado de divulgar preconceito contra os negros.
Em outro livro intitulado โ€œNegrinhaโ€ (volume 3 de sua obra completa, Editora Brasiliense-SP) o conto narra estรณria de quem lhe dรก o nome, escrita em 1923, sobre a vida de uma infeliz menina, nascida de escravos em fazenda de propriedade de uma senhora โ€œmuito virtuosaโ€, dona Inรกcia, fazendeira de โ€œcaridadesโ€, amiga do padre vigรกrio, que a saudava como โ€œdama de grandes virtudes apostรณlicas, esteio da religiรฃo e da moralโ€. Mas eram sรณ hipocrisias, pois a boa matrona maltratava a pobrezinha que com ela vivia,ย  com castigos severos e injustos, exatamente o avesso do que deveriam serย  suas propaladas virtudes. Para essa โ€œexemplarโ€ dama a Negrinha nรฃo passava de uma โ€œPesteโ€ e assim era por ela chamada, pois nem nome tinha. O choro da Negrinha incomodava a โ€œbondosaโ€ senhora que vinha logo com um โ€œcala a boca, diaboโ€. Mas esse choro nunca vinha sem razรฃo. Fome quase sempre, ou frio, ou sentimento de desprezo e de revolta que a pobre figurinha sem bem saber o que era certamente o que sentia desde o fundo da sua alma. O autor capricha nas tintas de sua estรณria, concluindo com a morte da Negrinha, โ€œabandonada por todos, como um gato sem donoโ€. Depois, o enterro em vala comum: โ€œa terra papou com indiferenรงa aquela carnezinha de terceira โ€“ uma misรฉria, trinta quilos mal pesadosโ€.
Eis aรญ o nosso Monteiro Lobato atento ร  misรฉria humana prรกtica comum por senhoras caridosas e seu descaso para com os renegados pela sorte. Em vez de preconceituoso ele foi um valente denunciador desse mundo de escravos e de maldades dos brancos. Porque, queiramos ou nรฃo, ainda guardamos de nossa cultura escravagista resquรญcios de uns tempos de desigualdades que envergonham nossa Histรณria.
Nรฃo รฉ sem razรฃo que a Constituiรงรฃo de 1988 traz em seu texto, entre os objetivos fundamentais da Repรบblica, promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raรงa, cor, sexo, idade ou quaisquer outras formas de discriminaรงรฃo. E mais: a prรกtica do racismo รฉ hoje considerada crime inafianรงรกvel e imprescritรญvel. ร‰ uma reaรงรฃo natural contra essa heranรงa malvada que se instalou em nรณs e ficouย  encravada em nossos subconscientes. Mas temos ainda muito que caminhar a fim de extirpar, para sempre, de nossos costumes tรฃo preconceituosa intolerรขncia. E tambรฉm temos de estar atentos ร s investidas que agora se desdobrarรฃo para, tanto quanto possรญvel, desfigurar os textos de Lobato, tirando-lhes a espontaneidade de um curioso observador da vida e dos costumes de um tempo de nossa Histรณria. ย