AME Memórias de São Bernardo

A rua em que nasci

Na antiga rua dos Alvarengas, os irmãos Secol: Augusta, Antonio Ambrosio, Maria Lidia, Lourdes e ao fundo Berta, anos 1920

Em meu registro de nascimento consta que nasci na rua dos Alvarengas número 10. Hoje, essa rua ainda existe, mas com outro nome e está localizada no Bairro Assunção, na época chamado de Linha Jurubatuba e todo o lugar era conhecido, pelos raros moradores, como “Colônias”.
A rua fica entre as avenidas João Firmino de Araújo e Humberto de Alencar Castelo Branco. Naquela época nesta rua de terra, sem nenhum calçamento, nem energia elétrica – portanto sem postes fincados no seu curso, muito menos com sistema de água encanada e esgoto, havia ali apenas quatro moradias: bem na esquina com a João Firmino, do lado direito de quem sobe, se localizava a casa de meus avós maternos: João Secol e Josephina Dellabarba Secol (atualmente, neste local há uma pracinha em forma de triângulo batizada com o nome dela), um pouco mais acima, ficava a casa dos tios de minha mãe: Angelina Dellbarba Rocco e Giuseppe Rocco.
E antes de chegar na rua Pedro Costa, onde, nesta esquina, o Dr. Célio instalou sua chácara (hoje ocupada por uma escola Ábaco) se localizava a nossa casa. Uma habitação muito simples (era alugada): com chão de terra batida – precisava-se molhar antes de varrer para não subir poeira. Também sem água encanada – tinha que puxar água do poço e o fogão era à lenha. Na frente da casa, um jardim ostentando dálias de todas as cores e tamanhos, rosas trepadeiras ao longo da cerquinha de madeira, palmas, hortênsias, vi-letas silvestres e jasmins.
Nos fundos, uma horta cultivada pela minha mãe, Maria Lidia Secol Breda, com todos os tipos de verduras e alguns legumes e no quintal, as lindas orquídeas plantadas e cuidadas por meu pai, Angelo Breda. E ainda havia muitos pés de frutas: bananas, caquis, laranjas, goiabas, araçás, em meio ao chiqueiro dos porcos, do galinheiro e das casinhas dos coelhos. Era um terreno grande, pois comportava uma bica de águas cristalinas para beber, um rio em que meu pai represou as águas para criar peixinhos vermelhos, um outro rio em que minha mãe, ajoelhada, lavava roupas apoiando-as sobre uma esfregadeira de madeira e um brejo onde as rãs coaxavam todas as noites.
No lado esquerdo desta rua tudo era mato, com exceção da modesta casinha da família Pilão.
Difícil imaginar como já foi esta rua e como é hoje. Nos anos 1960, ela foi rebatizada com o nome de Senador Ricardo Batista – ele foi um médico e político republicano que atuou como senador pelo estado de São Paulo e clínico na região de Casa Branca, interior paulista, no final do século XIX. Uma rua sem qualquer vestígio daquela em que nasci.

Hilda Breda – integrante da AME (Associação dos Amigos da Memória de São Bernardo).

Hilda Breda no lado oposto à sua casa na rua dos Alvarengas, em 1958

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