José Renato Nalini Opinião

Adjetivar demais

A falta de leitura priva muitas mentes de condições de uso adequado do exuberante vocabulário português. Nossa língua tem mais de meio milhão de verbetes, uma considerável coleção. Não se precisaria abusar do adjetivo, que é a fórmula encontrada por muitos – inclusive por mim, confesso – para enfatizar as ideias que se tenta exprimir.

O excesso de adjetivação torna as falas e os escritos um pouco redundantes, cansativos, exagerados. Mas, pensando bem, é melhor isso do que a abulia de certas pessoas que se desacostumaram de falar. Ávidos por participar das redes sociais, satisfazem-se com a onomatopeia, com o uso de pontos de exclamação, de emojis e outras fórmulas de esvaziamento da linguagem.

Todavia, a adjetivação não é fenômeno recente. Cruz e Souza, na verdade João da Cruz e Souza (1861-1898) foi um poeta brasileiro, reconhecido como o maior representante do simbolismo, negro, abolicionista e também chamado “Dante Negro”, “Cisne Negro” e “Poeta Negro”, mesmo como jornalista, abusava da adjetivação extravagante de seus versos.

Seu chefe na “Gazeta de Notícias” o proibiu de usar adjetivos no noticiário, pois não os empregava com discrição. Uma noite, em que ele estava de plantão na redação, houve um incêndio na cidade. Como o fogo era violento, ele achou que tinha a obrigação de adjetivar. E redigiu a manchete: “Pavoroso Incêndio!”.

Por infelicidade dele, por um erro de revisão ou, até, por algum revisor pretender pilheriar, a notícia saiu no dia seguinte como “Vaporoso Incêndio”. O chefe sabia que “vaporoso” era um dos adjetivos utilizados por Cruz e Souza. Acreditou que era mesmo essa a intenção do redator e o suspendeu do serviço.

O uso em excesso deu margem a que a confusão resultasse de intenção do jornalista, o que de fato não ocorria. Preço de quem exagera no uso de qualificativos. Lição dos grandes escritores: releia o que escreveu e corte todos os adjetivos. Deixe o texto íntegro, puro, enxuto. Opa! Tais palavras não são adjetivos?

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