As redes sociais tรชm desempenhado um papel atuante na polรญtica do ABC, desde a campanha eleitoral em 2017 atรฉ os atuais mandatos dos prefeitos da regiรฃo. Mas, o contato direto entre mandatรกrio e eleitores poderia significar um elemento regenerador do regime democrรกtico? Ou esse fascรญnio pelo contato direto entre representados e representantes seria, na verdade, uma espรฉcie de novo fanatismo polรญtico que colocaria em risco a prรณpria democracia?
Os prefeitos do ABC, em inauguraรงรตes, vistoria de obras, reuniรตes e coletivas de imprensa, estรฃo atrรกs das telas de celulares e cรขmeras. Fazem discursos direcionados aos seus seguidores, tiram fotos, fazem selfies e estrelam verdadeiras peรงas publicitรกrias, a todo instante, dos feitos de seus prรณprios governos, sempre iniciando as gravaรงรตes, com palavras de grande apelo e inserรงรฃo popular: โPessoal. Hoje, estamos aqui…โ. Ainda estrelam โlivesโ (inserรงรตes ao vivo), convocando seus seguidores a acompanharem verdadeiros shows, orquestradamente ensaiados, mas, com o rรณtulo do contato informal, de improviso.
O objetivo, dos prefeitos protagonizarem filminhos e seflies, รฉ um sรณ, โfalarโ com seus eleitores e munรญcipes. Ou seja, trazer a possibilidade de estabelecer um liame direto entre o eleitor e o detentor do poder, sem a mediaรงรฃo das instรขncias legais e da mรญdia.
Esse โnovoโ modo de fazer polรญtica sucedeu a crise dos partidos polรญticos tradicionais. A polรญtica institucionalizada exercida atravรฉs do mandato representativo comeรงou a sofrer fortes abalos, evidenciado pela distรขncia entre polรญticas e eleitores.
Nas eleiรงรตes de 2018, esse antigo modelo de fazer polรญtica recebeu seu mais forte golpe com a eleiรงรฃo de inรบmeros candidatos sem qualquer tradiรงรฃo partidรกria, que se apoiaram, fortemente, no contato direto com os eleitores por meio das mรญdias sociais. Mas, serรก que os polรญticos que adotaram as redes sociais como mรฉtodo eleitoral vieram para ficar? Serรก que essa polรญtica contribui efetivamente para construรงรฃo de uma democracia mais vigorosa?
O contato direto e imediato que as redes sociais proporcionam opera de forma oposta ร sociedade em que vivemos, pois leva em consideraรงรฃo, apenas e tรฃo somente, o particular e jamais o todo; o grupo, e nรฃo a comunidade. Compartilham de uma visรฃo totalmente parcial da sociedade. Por exemplo, os prefeitos sรฃo verdadeiros รขncoras das prรณprias aรงรตes, falando o que querem, da maneira que lhe interessam, para os โseus gruposโ. Nรฃo hรก pluralidade, contrariedade, pontos negativos, falhas, nada. Tudo รฉ perfeito, de uma maneira utรณpica e descolada da realidade dos munรญcipes. E, por isso mesmo, os vรญdeos, ainda que sejam obras cinematogrรกficas perfeitas, nรฃo ensinam a dialogar porque รฉ muito fรกcil evitar a controvรฉrsia. Sรฃo apenas parcialidades de um todo, que munรญcipes e eleitores nunca terรฃo acesso. E isso tambรฉm acontece nas redes sociais, afinal, quem nรฃo as acessa, nรฃo os procura, nรฃo sabe o que estรก acontecendo ou o que estรก sendo feito.
O contato direto entre eleitores e o poder polรญtico, viabilizado pelas novas tecnologias, longe de permitir uma convivรชncia mais democrรกtica, na verdade, emula ainda, o facciosismo, ou seja, a formaรงรฃo de verdadeiros grupos rivais, que tratam aqueles que pensam diferente, como inimigos a serem combatidos, com muito repรบdio, outra palavra, eventualmente proferida, nos vรญdeos dos polรญticos locais.
Na histรณria da polรญtica do ABC, รฉ a primeira vez que prefeitos pautam seus mandatos no contato virtual com seu eleitorado. O reality show dos mandatos, proporcionado pelas redes sociais, pode trazer resultado a curto prazo. Mas, ainda nรฃo se sabe os riscos que essa novidade em fazer polรญtica possa traduzir. Permanecerรฃo os filminhos publicitรกrios dos polรญticos como verdadeiras peรงas chaves para as vitรณrias eleitorais ou a populaรงรฃo irรก enjoar de ouvir o โpessoalโ, nos milhares de vรญdeos utรณpicos e unilaterais?











