Mônica Inglez Opinião

Autocuidado Digital

Quando falamos privacidade e proteção de dados na maioria das vezes associamos o tema a formulários, políticas extensas e termos jurídicos complexos. No entanto, à medida que a vida migra para o ambiente digital, esse tema passa a ocupar um espaço muito mais íntimo e humano: o do autocuidado. Proteger dados pessoais hoje significa proteger a própria identidade, a reputação, a segurança e, cada vez mais, a saúde emocional.
No mundo virtual, nossos dados contam histórias sobre quem somos. Informações aparentemente simples – como hábitos de consumo, localização, preferências, contatos, curtidas ou tempo de navegação – permitem a construção de perfis detalhados. Esses perfis não servem apenas para publicidade personalizada, mas também influenciam decisões automatizadas, ofertas de crédito, oportunidades profissionais e a forma como somos tratados por plataformas e empresas. Quando esses dados são usados sem critério, transparência ou segurança, o impacto ultrapassa o campo patrimonial e alcança a esfera pessoal.
A exposição excessiva no ambiente digital tem efeitos diretos sobre a reputação. Conteúdos publicados impulsivamente, compartilhamentos sem reflexão ou vazamentos de informações podem gerar danos difíceis de reverter. Uma fotografia, um comentário fora de contexto ou um dado sensível divulgado indevidamente permanecem acessíveis por tempo indeterminado, muitas vezes fora do controle do titular. Cuidar da privacidade, nesse cenário, é também cuidar da imagem construída ao longo da vida.
Há ainda um aspecto menos debatido, mas igualmente relevante: a saúde emocional. A sensação constante de vigilância, a hiperexposição nas redes sociais, o medo de golpes, fraudes ou do uso indevido de dados geram ansiedade, insegurança e desgaste psicológico. O ambiente digital, que deveria facilitar a vida, passa a ser fonte de estresse quando não há consciência sobre limites, riscos e responsabilidades. A privacidade funciona, assim, como um mecanismo de proteção emocional, permitindo escolhas mais conscientes sobre o que compartilhar, com quem e para qual finalidade.
Do ponto de vista jurídico, a proteção de dados pessoais reforça essa dimensão humana ao reconhecer que o titular deve ter controle sobre suas informações. Princípios como finalidade, necessidade, transparência e segurança não são meras exigências legais: são instrumentos de respeito à dignidade da pessoa. Eles reforçam a ideia de que dados não são mercadorias desprovidas de valor humano, mas extensões da própria personalidade.
Tratar a privacidade como autocuidado digital significa mudar a lógica reativa – que só se preocupa após um problema – para uma postura preventiva e consciente. Isso vale tanto para cidadãos quanto para empresas. Para as pessoas, envolve adotar hábitos digitais mais seguros e refletidos. Para as organizações, exige responsabilidade no tratamento de dados, comunicação clara e práticas que priorizem a confiança.
Em um mundo cada vez mais conectado, proteger dados é, em essência, proteger pessoas. A privacidade deixa de ser um luxo ou um entrave e se consolida como uma forma legítima de cuidado consigo mesmo no ambiente digital.

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