José Renato Nalini Opinião

Bairrismo acadêmico

Uma nação com dimensões continentais abriga uma biodiversidade humana admirável. Natural que haja disputa, em emulação às vezes benéfica, entre as várias regiões. Principalmente quando elas recebem a denominação de Províncias ou Estados, o que acentua o seu sentido de pertencimento.

   Considerar o seu berço natal o melhor, o mais importante, é algo natural e característico ao ser humano. Desse entendimento não escapam os intelectuais. Ao contrário, podem ser até mais criativos e instigantes do que os desacostumados do uso talentoso da palavra.

   Um dos famosos escritores que abusava das ironias foi Emilio de Menezes. Seu nome completo: Emílio Nunes Correia de Meneses,(1866-1918) jornalista e poeta parnasiano brasileiro, imortal da Academia Brasileira de Letras e mestre dos sonetos satíricos. Para Glauco Mattoso, o poeta paranaense é o principal poeta satírico brasileiro após Gregório de Matos. 

   Quando aconteceu, por volta de 1917, um escândalo que envolveu o então Presidente de Minas Gerais – era assim que se chamavam então os Governadores – Emílio, fingindo indignação, brindou os que o ouviam com a seguinte exclamação: “Mas, mineiro cria boi, mineiro cria porco, mineiro cria galinha, por que mineiro não cria vergonha?”.

   Minas, um enorme e poderoso Estado, sempre suscitou comentários de parte dos não mineiros. Dizia-se, ao tempo em que muita gente viajava por lá, à procura do ouro que diziam sobrar, constatava-se a avareza dos mineiros. Um paulista, ao chegar ao território das Minas, perguntava ao seu hospedeiro: – “Quanto custa o pouso por uma noite?” E a resposta era: “Nada, moço. A casa é de vossa senhoria; vossa senhoria só tem que pagar o capim do cavalo”. Na manhã seguinte, cobravam-lhe dois mil reais pelo capim do cavalo…

   Essas estórias corriam, na primeira metade do século XX, nas rodinhas dos então fundadores e primeiros ocupantes das Cadeiras da Academia Brasileira de Letras, criada por Machado de Assis em 1897. São narradas no delicioso “Diário Secreto” de Humberto de Campos (1886-1934). Lembrá-las ajuda a conhecer melhor a alma brasileira, prenhe de tonalidades, assim como a biodiversidade natural, a mais exuberante do planeta.

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