AME Memórias de São Bernardo

Caçadas em São Bernardo

Caçada de veados no sítio de Benedito Serafim Bueno, onde hoje é a ETEC, bairro Baeta Neves, 1918. Coleção Cléa Campi. (Acervo Centro de Memóriab

Quando nos lembramos que o território de São Bernardo compreendia as sete cidades que hoje formam o ABC, havia muita terra a ser desbravada e, portanto, grande parte deste espaço era ocupado por floresta virgem – a Mata Atlântica. E, evidente, além de sua flora exuberante, abrigava muitos animais. Por isso, era comum a população se alimentar de animais caçados e abatidos. Algo impensável hoje e, felizmente, proibido desde 1967. Mesmo quando o município se emancipou e passou a ser São Bernardo, ainda havia muita mata intocada.
Ainda criança, me lembro que não só em minha casa, mas em todas as que eu frequentava ou visitava, sempre havia uma espingarda afixada por uma alça, numa parede. Imagens assim, soam estranhas, mas naqueles tempos era tão corriqueiro que ninguém se espantava – geralmente estas armas ficavam lá, penduradas. Na minha casa mesmo, a arma só era alçada da parede quando meu pai se aventurava com um grupo de amigos, todos orquidófilos, para ir “caçar” orquídeas na Serra do Mar – dizia que era para se defenderem das onças, porém ele e amigos nunca as encontrou. Entretanto, conheci alguns homens que moravam perto de nossa casa e todos se diziam caçadores – se reuniam em fins de semana para caçarem juntos.
Cheguei a ver, uma vez, quando saíam na carroceria de um caminhão (naquela época podia – a lei de trânsito não impedia), municiados com espingardas e equipados com cães farejadores. Soube, por minha mãe, que se embrenhavam na mata para caçar e abater os indefesos animais que lá habitavam e que, depois, estes seriam parte do cardápio na casa de cada um deles. Já adulta e, muitos anos depois, fiquei sabendo que eles continuaram por longo tempo, com essa prática mesmo depois da implantação da Lei de Proteção à Fauna, burlando as regras. Muito triste.
É difícil processar um costume como esse. Mas sabemos que é um contexto que fez parte de um outro momento, de uma outra cultura, de uma outra vida social. É uma memória que, felizmente, faz parte do passado.

Hilda Breda – integrante da AME (Associação dos Amigos da Memória de São Bernardo).