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Carta ao meu poeta Manoel de Barros

Escrita em Sรฃo Bernardo para Campo Grande, em 13 de novembro de 2014.
Meu amigo Manoel de Barros:
Escrevo-lhe no dia de sua morte, aรญ em Campo Grande, longe de Cuiabรก, de onde veio. Mas vou adiantando que para mim vocรช nรฃo morre. Bem, atรฉ que pode morrer, mas sua poesia vai ficar porque ninguรฉm fez versos ou prosa como vocรช. Logo que eu soube, corri para a sua โ€œGramรกtica Expositiva do Chรฃoโ€, com esta terna dedicatรณria: โ€œAo meu querido amigo Tito Costa, com um afetuoso abraรงo do Manoel de Barros. Em 22.3.96.โ€ Almoรงamos juntos aรญ em Campo Grande com nosso amigo Renato Graeff aquele gaรบcho de โ€œNรฃo Me Toquesโ€, morando aรญ na cidade Vocรช nunca botou essa cidade de nome curioso em seus versos. – Nรฃo gostou? Ah, sim, porque ela nรฃo estรก nas quebradas do seu Pantanal!
O noticiรกrio de sua morte veio cheio de citaรงรตes de seus poemas, mas รฉ impossรญvel citar os melhores porque todos sรฃo melhores. Quer ver: โ€œO azul รฉ muito importante na vida dos passarinhosโ€, ou โ€œgrilos nรฃo tรชm serventia para o silรชncioโ€, ou โ€œvaga lumes driblam a trevaโ€, ou ainda, como se lobisomem existisse, vocรช arrisca um palpite: โ€œhouve atรฉ quem tenha visto ele, pois o vento que sopra na folha pode que sejaโ€.ย  Vocรช disse tambรฉm que โ€œMinhocas arejam a terra. Poetas, a linguagemโ€. Isto porque poetas olham a vida, os homens, as coisas, com lentes coloridas.
Manoel, vocรช morreu, dizem os jornais, com 97 anos, perto dos 100. Bem que vocรช lembrava que โ€œa gente sรณ chega ao fim quando o fim chega! Entรฃo pra que atropelar?โ€. Mas vocรช bem que podia atropelar pra ficar um pouco mais com a gente, falando de insetos, sapos, rรฃs, tartaruga, rios cheios de curvas e de mistรฉrios, como sรณ mesmo um privilegiado como vocรช, seria capaz de escrever.ย  Jรก me disseram, e eu acho que com razรฃo, que vocรช รฉ o Guimarรฃes Rosa na poesia.ย  Sei que vocรช nรฃo gostava da aproximaรงรฃo, mas que a prosa de ambos, ninguรฉm sabe prosear tรฃo bem, isso digo eu, sem medo de errar.
Escute, Manoel. Tenho de parar por aqui, senรฃo eu choro. Mas lembro a vocรช o meu Rio Talรณ de que lhe falei naquele almoรงo em Campo Grande. Foi o rio da minha meninice, em Torrinha, cortando um pedaรงo da cidade pelos lados da linha do trem. Nadando nele, a gente se deliciava na grandura de suas รกguas.ย  Escuta: me esquecia de mandar um abraรงo a seu amigo Bernardo, que morreu com vocรช, mas vai continuar vivo porque vocรช o faz viver em cada pรกgina. E a gente a ouvir โ€œos escutamentos de Bernardoโ€, ele que โ€œsรณ pelo olfato descobria as cores do amanhecerโ€.ย  Para ele, โ€œo sol transborda nas estradas e no olhar das seriemasโ€.ย  E mais: โ€œsapos com rio atrรกs de casa atraem borboletas amarelasโ€. Se vocรช inventou o Bernardo, esteja certo de que ele passou a existir, e como! Pois vocรช mesmo disse que ele โ€œรฉ homem percorrido de existรชnciasโ€.
Manoel, receba de novo me adeus e a esperanรงa de nosso reencontro nรฃo sabemos onde, nem como, nem quando, mas que haverรก, isso haverรก. Seu amigo triste, Tito Costa.
Mas, houve sim, o reencontro. Em sessรฃo recente de poesias e textos seus recitados pela atriz Cassia Kis numa noite no teatro no edifรญcio da FIESP, Avenida Paulista em Sรฃo Paulo. Chovia a cรขntaros na cidade, o que nรฃo impediu que o teatro ficasse lotado e seus textos fluรญam pela voz e na bela interpretaรงรฃo dessa notรกvel atriz. Foi uma noite de encantamento nesse meu reencontro de saudade com o poeta, Manoel de Barros, sua poesia contidos na beleza e na graรงa da voz da atriz que a interpretou.