Cultura & Lazer

Casa da Bocaina realiza imersão coletiva inédita no país na arte da cerâmica sonora

Projeto itinerante dos argentinos Julieta Bilbao e Martín Gastón Merlos chega ao Brasil pela primeira vez

 Refúgio de hospedagem no coração da Serra da Bocaina (SP), a Casa da Bocaina será palco de um encontro inédito entre a arte cerâmica e a Mata Atlântica brasileira. Por meio de duas oficinas – que serão realizadas nos dias 17 a 23 de abril (esgotada) e entre 27 de abril e 3 de maio – o espaço comandado por Betty Prado e Thamy Silva recebe a primeira edição no Brasil do Nómada Cerámica, projeto itinerante dos artistas visuais e ceramistas argentinos Julieta Bilbao e Martín Gastón Merlos.

Intitulada Máscaras Sonoras, a residência artística, desenvolvida para uma vivência coletiva com 12 participantes em cada um dos programas, propõe uma imersão na produção de instrumentos cerâmicos que combinam estética, ancestralidade e som, em diálogo direto com a introspecção da floresta e o silêncio inspirador da região.

Serão seis dias de ocupação criativa em cada um das oficinas, sendo: quatro dedicados à produção com barro; um à queima a fogo; e um às finalizações com cera. Ao longo do processo cada participante construirá sua própria máscara sonora, um objeto que funciona como sistema aerófono e câmara de ressonância, originário de culturas ameríndias da América Latina e de povos e grupos étnicos africanos. A experiência inclui introdução teórica, modelagem manual, brunimento e uma ação sonora coletiva.

Com mais de 400 atividades realizadas na América do Sul e Europa desde 2017, a chegada do Nómada Cerámica à Casa da Bocaina é resultado de uma conexão à distância que se consolidou ao longo dos últimos meses. Acompanhando o trabalho dos argentinos nas redes sociais, Betty e Thamy identificaram uma sintonia profunda entre a proposta do casal e a filosofia do refúgio.

“A Betty conheceu o trabalho deles no ano passado e ficamos muito impactadas. Nunca tínhamos visto algo tão potente dentro da cerâmica. É um trabalho único”, conta Thamy Silva, que codirige o espaço com sua companheira. “Começamos a nos perguntar se seria possível trazê-los ao Brasil. Iniciamos uma conversa que levou meses, com toda a logística de deslocamento. Eles são muito criteriosos, mas desde o final do ano passado deixamos encaminhada a ideia e conseguimos concretizar”, diz.

Para Betty Prado, idealizadora da Casa da Bocaina, receber o projeto representa a materialização de um desejo que ela e Thamy cultivaram ao longo dos anos: o de transformar o refúgio em um ambiente de pulsação artística. “Receber a Nómada Cerámica pela primeira vez no Brasil é muito significativo para nós, porque reforça algo que está no coração da Casa da Bocaina: criar um espaço de encontro entre pessoas, saberes e tempos diferentes”, afirma. “A presença deles amplia esse campo, trazendo novas referências e outras formas de olhar e fazer. Para nós, essa residência também é uma forma de afirmar a Casa da Bocaina como um território vivo de experimentação artística, sensível e aberto ao mundo, mas profundamente enraizado na paisagem e na experiência de estar aqui. A procura foi incrível, a primeira turma já está completa e conseguimos abrir uma nova data.”, complementa.

Com uma piscina de pedra alimentada por nascente, sauna, cachoeira privativa e o Acquabox – cápsula de flutuação aquática em gravidade zero criada pelo multiartista Maurízio Mancioli –, a Casa da Bocaina já oferecia experiências como arquearia meditativa e ateliê de cerâmica com forno de chão colombiano. A chegada do Nómada Cerámica aprofunda a vocação do espaço de proporcionar vivências imersivas.

“A grande experiência da Casa da Bocaina é o tempo. Oferecemos diversas atividades, mas o que realmente transforma é viver outro tempo. O tempo do barro, do fogo, da espera”, afirma Thamy. “A queima no forno de chão, com lenha remanescente, conecta com camadas mais profundas. Não é apenas estar em uma casa bonita na floresta; é um processo de reset. A cerâmica regula o tempo. Você não pode correr contra ele”, completa.

Thamy Silva e Betty Prado (Fotos: Divulgação)

Essa compreensão temporal como parte essencial do processo criativo também está no centro da proposta de Martín Gastón Merlos, que enxerga na imersão prolongada um contraponto necessário à cultura da pressa. “Escolher dedicar seis dias a um processo criativo, do início ao fim, na presença e em contato com a natureza, é um ato profundamente valioso nos dias de hoje”, reflete o artista.

“A cerâmica nos lembra constantemente que o tempo é um mestre. A argila, moldada pela água, o ar que acompanha o processo de secagem, o fogo que transforma a argila em pedra – tudo requer escuta, observação e paciência. Em uma sociedade que exige velocidade, produtividade e resultados imediatos, propomos o desafio de habitar o processo, de incorporar essa temporalidade”, afirma.

Julieta Bilbao, que ao lado de Martín conduzirá as duas séries de encontros, destaca o caráter singular de cada edição do Nómada Cerámica e a potência de realizá-la em um ambiente como a Serra da Bocaina. “Cada encontro que oferecemos é concebido como um espaço criativo único e cuidadosamente selecionado. Fornecemos uma proposta e orientação, mas o processo é construído coletivamente, em diálogo com o grupo e a terra. Isso torna cada experiência irreplicável”, explica. “Realizar esses encontros em um ambiente como a floresta da Serra da Bocaina amplifica essa experiência. A paisagem, os ritmos da natureza e a presença da terra nos lembram de onde viemos e para onde vamos. É um convite para despertar a memória, para nos deixarmos permear pela energia do lugar e para nos reconectarmos conosco mesmos e com o coletivo.”

A edição brasileira do Nómada Cerámica marca também um movimento de projeção internacional da Casa da Bocaina. Ao receber hóspedes de diferentes países e consolidar uma parceria com um projeto de trajetória consolidada na América do Sul e Europa, o refúgio passa a ocupar um novo patamar no turismo de experiência.

“Para nós, a residência Máscaras Sonoras é um marco. Inaugura uma nova fase ao receber artistas estrangeiros. A Casa da Bocaina deixa de ser apenas um destino no Brasil e passa a se posicionar para o mundo. Julieta e Martín diziam que também era um sonho deles estar no Brasil, e há nesse encontro uma dimensão simbólica importante: somos parte do mesmo território latino-americano. A cerâmica atravessa todo o continente, toda a cultura ameríndia”, conclui Thamy.

A programação da residência artística Máscaras Sonoras inclui hospedagem e alimentação completas durante todos os dias de atividade, além de todos os materiais necessários para a produção das máscaras. As vagas são limitadas e as inscrições estão abertas no perfil oficial da Casa da Bocaina no Instagram (@casadabocaina).