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Constrastes americanos

Nos Estados Unidos, onde a gente pensa que tudo sรฃo flores, acabamos por concluir que nรฃo รฉ bem assim. De repenteย  estoura uma revolta coletiva em razรฃo de descontentamentoย  da comunidade negra pela distinรงรฃo ainda bem clara numa discriminaรงรฃo racial ainda viva e sempre aflorada naquele paรญs. Certa vez lรญ em alguma passagem de fato demonstrativo dessa distinรงรฃo que ela estarรก sempre presente na vida americana. Pois, por incrรญvel que pareรงa, ainda temos noticia, de vez em quando, ou de vez em sempre, de fatos denunciadoresย  de uma polรญtica racial sempre presente nesse paรญs onde se canta a liberdade como uma de suas principais caracterรญsticas. Pelo menos em tema de discriminaรงรฃo racial o paรญs ainda vive uma tradiรงรฃo inquestionรกvel: o repรบdio dos brancos em relaรงรฃo aos negros. Um filme interessante, entre outros nos mostrou a realidade: uma senhora branca bem colocada na sua posiรงรฃo social tem um motorista negro a seu serviรงo diรกrio. Saem ambos, ela para ir ร s compras e ele como mero condutor.ย  No meio do caminho o motorista โ€œprecisa ir ao banheiroโ€ e revela sua necessidade urgente. O carro para num restaurante da estrada para desafogo do infeliz, claro que com a aquiescรชncia da patroa. E ele vai a uma moita de capim por trรกs da qual irรก desincumbir-se da tarefa urgente. A donaย  fica ร  espera no carro, com a naturalidade de uma situaรงรฃo โ€œnormalโ€. Logo em seguida chegam a um restaurante de beira de estrada. A dona dirige-se ao local apropriado para ir ao toalete, ao qual o motorista nรฃo tem acesso. E ele fica ร  espera no carro. Interessante notar que, no filme, a dona nรฃo manifesta nenhuma distinรงรฃo em seu comportamento, tudo muito natural, respeitando o distanciamento de praxe entre ambos. E o filme segue deixando para trรกs o fato que registrava a diferenรงa.
Mas a dona nรฃo alimenta a habitual discriminaรงรฃo e atรฉ insistiu para que ele utilizasse o local reservado a ela e aos brancos em geral. Ele resiste, pois estรก nele, instaladoย  o costume da diferenciaรงรฃo. E mais: o temor de um โ€œdeixa pra lรกโ€ de algum fanรกtico senhor de uma situaรงรฃo de desigualdade que impera na cabeรงa dele e na do outro, tambรฉm.
E nรณs que nรฃo alimentamos o hรกbito ficamos intrigados, para nรฃo dizer irritados com essa tรฃo falada distinรงรฃo social racial e absurda.
O caso me veio ร  cabeรงa numa festa de noivado de umaย  mulher branca com um jovem negro. Havia um natural esforรงo dos protagonistas da reuniรฃo para nรฃo deixar aflorar a discriminaรงรฃo, mas ela pairava no ar e nos menores gestos deles, disfarรงados, como se tudo fosse absolutamente natural. E eu me perguntando: por que isso acontecia?
A natural resposta era: porque sempre acontecia, quisรฉssemos ou nรฃo.
E atรฉ quando?
Nรฃo adianta apelarmos para a natural existรชncia de uma discriminaรงรฃo racial que temos como formaรงรฃo de nosso carรกter. ร‰ difรญcil de aceitar, mas aceitamos. Monteiro Lobato tem uma histรณria a respeito: a negrinha filha da cozinheira brincando com uma boneca da filha da dona da casa. Mas essa dona รฉ intransigente e nรฃo admite o fato: retira das mรฃos da pretinha, com o furor para ela natural da intolerรขncia racial. E aplica-lhe um castigo exemplar. Onde se viu tanta naturalidade o gesto da negrinha de querer brincar com uma boneca? E onde se viu tal ponto de intolerรขncia da senhora dona para com uma menina inocente deslumbrada com uma simples boneca?
Tudo isso me vem ร  cabeรงa ante o fato tรฃo estranho quanto intolerante Ou intolerante e por isso mesmo, estranho.