07/04/2012
Com o respeito devido reconto aqui curiosa estรณria que o professor Josรฉ de Souza Martins relata em sua coluna para um jornal de Sรฃo Paulo. Um certo alfaiate participando em teatro amador como ator principal numa peรงa de Semana Santa sobre o drama da paixรฃo, fazia o papel do Cristo. Acontece que a ilustre figura de ator, muito magro e de corpo especial para o papel, era um fumante inveterado. Numa das apresentaรงรตes do drama jรก estava ele pregado ร cruz, sรณ de fralda, para representar a crucificaรงรฃo. Continuava com o cigarro na boca, fumando distraรญdo. Ao abrir-se a cortina para o espetรกculo, foi advertido pelo bom ladrรฃo ao seu lado, e tratou de cuspir o cigarro que, em vez de cair no chรฃo, caiu-lhe no cรณs da fralda indo parar no pรบbis entre o pelos e a pele. Nos primeiros minutos daquele ato final, com a morte do Cristo na cruz, ao ser lancetado pelo impiedoso soldado romano comeรงou a contorcer-se, tentando com o movimento de uma perna sobre a outra, livrar-se da brasa do cigarro que o queimava. No seu desespero, gritou as tradicionais palavras do script: โPai, em tuas mรฃos entrego o meu espรญritoโ. Pendeu a cabeรงa, banhado em suor, as lรกgrimas escorrendo-lhe pelo rosto, a multidรฃo aplaudindo, entusiรกsticamente, pelo realismo de seu desempenho. Houve choros, entre as palmas, diante de tanto sofrimento que ninguรฉm suspeitava fosse provocado pela brasa do cigarro. E conclui o narrador: Nunca, jamais, em tempo algum, alguรฉm desempenhara com tanta perfeiรงรฃo o papel do crucificado.
Na mesma linha de situaรงรฃo inusitada, outra Paixรฃo de Cristo, num circo em Torrinha, mostrou um quadro tรฃo risรญvel quanto o acima lembrado. Entre os convocados da cidade para figurantes como soldados romanos estava o italianรฃo Dante Milani, muito popular, desbocado, bestemiador reconhecido por todos. Ao prender o Cristo para levรก-lo ร cruz ele grita: โEsteje presoโ, โporco Dioโ! Claro que a platรฉia veio abaixo com gargalhadas e aplausos diante da firmeza do guardiรฃo romano, com sua autoridade e sua blasfรชmia costumeira, tรฃo conhecida na cidade.
Sรฃo acontecimentos verdadeiros, com a graรงa prรณpria do espรญrito brincalhรฃo dos brasileiros, sempre com o respeito devido ao drama da paixรฃo celebrado a cada ano em circos mambembes pelos desvรฃos deste Brasil catรณlico e ingenuamente supersticioso.
Tito Costa รฉ advogado, ex-prefeito de Sรฃo Bernardo do Campo e ex- deputado federal constituinte de 1988. E-mail: antoniotitocosta@uol.com.br













