Hรก alguns anos, quando eu era voluntรกria no Hospital Anchieta, conversando com uma amiga surgiu a ideia de fazer uma exposiรงรฃo fotogrรกfica com mulheres e talvez, homens, que estavam passando por um cรขncer. Em contato na รฉpoca com o diretor do hospital de Sรฃo Caetano, apresentei a ideia e ele disse que era muito boa e que estava pronto para me apoiar. Seu nome? Ficou no passado.
Minha amiga Neusa Scalea, fotรณgrafa amadora, jรก se dispรดs a gratuitamente me ajudar no sonho e jรก estava entrando em contato com a Fugi para o patrocรญnio. O amigo Roberto Rodriguez iria pentear e maquiar as mulheres convidadas. Atรฉ ofereceu um espaรงo para trabalharmos com essas escolhidas. Eu jรก pensava em apresentรก-las bem exรณticas, algumas sem seus cabelos. Tinha feito uma lista com seus nomes e uma autorizaรงรฃo delas para usarmos suas imagens. Cada uma daria um pequeno depoimento que seria usado ao lado da foto. Eu tambรฉm seria uma protagonista.
Foi meu รบnico sonho que nรฃo realizei. Atรฉ hoje nรฃo sei porque morreu.
No mรชs de junho passado, ao ir ao Shopping Metrรณpole encontrei uma exposiรงรฃo de fotos de mulheres que passaram por um cรขncer de mama. No meio delas a de um homem, pois muitos tambรฉm sรฃo afetados por essa terrรญvel doenรงa nos seios.
DE PEITO ABERTO… Meu sonho foi realizado pela jornalista Vera Golk e seu marido o fotรณgrafo Hugo Lenzi. Comeรงaram esse projeto no ano 2.006 ao verem vรกrias pessoas da famรญlia passar por essa doenรงa traumatizante.
Essa exposiรงรฃo foi a รบnica mostra convidada a fazer parte da ONU em Nova York, no perรญodo da Assembleia Geral das Naรงรตes Unidas em toda a histรณria.
Aqui em Sรฃo Bernardo a exposiรงรฃo se encerrou com uma palestra com a apresentaรงรฃo do casal Vera e Hugo e convidados especiais, mรฉdicos relacionados na รกrea do cรขncer e mulheres que faziam parte das fotos apresentadas e que deram seu depoimento.
Ouvindo as muitas falas delas, e acompanhando quantas que foram abandonadas pelos maridos nessa passagem difรญcil da vida, lembrei duma mensagem que fiz em 18-04-1983 para um ciclo de palestras que fizemos com o apoio da prefeitura da cidade e que foi distribuรญda aos presentes. Vou entรฃo repassar. Observem que foi em 1983.
โDesde que somos โgenteโ ouvimos bem baixinho nas conversas, a palavra cรขncer. Ele sempre ataca um amigo, um vizinho ao lado. Nรณs estamos imunes a ele. Assim pensamos. ร catastrรณfico numa famรญlia quando ele atinge um ente querido e nรฃo existe a aceitaรงรฃo. Um dos cรขnceres de mais fรกcil cura รฉ o dos seios e da regiรฃo uterina quando descobertos no inรญcio. O da regiรฃo uterina nรฃo traz tantos problemas psรญquicos ร mulher, porรฉm o dos seios, quando รฉ feita a mastectomia radical, pode transtornar totalmente a vida do casal.
Em junho de 1982 eu tive um dos seios extraรญdo. Me perguntei: Porque eu? … Mas a resposta veio em seguia: Porque nรฃo eu?
Nรณs mulheres que passamos por isso, nos sentimos mutiladas na parte que mais transmite nossa feminilidade aparente. ร necessรกrio, para que se forme uma boa โcucaโ, a aceitaรงรฃo total por parte do marido para que a mulher tambรฉm a aceite. Nessa hora, vocรช marido, deverรก demonstrar sua fortaleza para que ela se fortaleรงa. Deverรก tambรฉm demonstrar todo seu carinho, paciรชncia, compreensรฃo, e sentirรก que seu amor serรก renovado. Pode acontecer nesses momentos difรญceis, um reencontro dentro do casamento. ร a certeza para nรณs, mulheres, que somos amadas nรฃo pelo nosso corpo, mas sim pelo nosso espรญrito, nossa cabeรงa. Essa mensagem transmite o que eu senti, algo do que passei. ร o meu agradecimento especial ao meu marido Theo, pois foi com ele que consegui superar todos os meses de tratamento (tempos difรญceis), meus temores, minhas angรบstias. Hoje sou uma mulher sem traumas e muito feliz. โ
Parabรฉns ao Projeto DE PEITO ABERTO…
Um abraรงo, Didi













