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Desequilíbrio fiscal do governo faz Banco Central de refém, frente à Selic com margem limitada, diz FecomercioSP

 
Parte do mercado espera um novo corte, de 0,25 p.p., enquanto outra acredita que ciclo terá uma pausa (Foto: Ag.Br)

O mercado está dividido. Parte dele acredita que o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), fará um novo corte na taxa básica de juros do País, a Selic, na reunião que começa, nesta terça (16). A projeção é para uma redução de 0,25 ponto porcentual (p.p.), o que a levaria para 14,25% ao ano (a.a.). Mas há outra parte que — diante dos dados da inflação, das incertezas globais e, até mesmo, da sinalização do acordo entre Estados Unidos e Irã — espera uma pausa no ciclo de cortes.

Com os dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de maio, divulgados na última sexta-feira (12), a inflação já está em 4,72% no acumulado em 12 meses, acima do teto de 4,5%.

No entanto, de acordo com a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), esse debate está viciado. Para além dos ciclos de cortes ou altas da Selic, é fundamental enfatizar uma conjuntura marcada pelo desequilíbrio fiscal. O BC e o comitê não têm margem de atuação e, no limite, reagem às necessidades conjunturais. O órgão é refém dos gastos explosivos do governo.

A discussão se trata, na verdade, de orçamento, e não da Selic. Os dados corroboram essa análise: a dívida pública é, hoje, de 80% do Produto Interno Bruto (PIB), com uma projeção de chegar a 83,6% ainda neste ano, segundo o Tesouro Nacional. O Instituto Fiscal Independente (IFI), do Senado Federal, calcula que essa dívida chegará a 117,7% do PIB em 2035, enquanto o Fundo Monetário Internacional (FMI) já coloca o Brasil entre as economias emergentes mais arriscadas do mundo.

Vale lembrar que, em 2025, foi a primeira vez que o governo brasileiro precisou pagar R$ 1 trilhão só em juros da dívida pública. Isso representa o dobro de todo o orçamento da Saúde e da Educação somado.

Os dados da inflação não arrefecem, a partir daí, porque, com mais recursos na economia, a demanda agregada permanente estimulada, e os juros surgem mais para dar conta dessa dinâmica do que para regular o mercado. A FecomercioSP calcula que, para cada p.p. da Selic, a dívida bruta “ganha” R$ 55,9 bilhões.

E, claro, essa estrutura atinge as famílias em cheio. Um terço do orçamento delas (29,3%) está comprometido com dívidas e a inadimplência segue em patamares elevados historicamente. Isso se vê até de forma mais clara nos Serviços, que corresponde a 60% do IPCA. Se o governo injeta dinheiro na economia via gastos, o setor é o primeiro a inflar. A Selic tenta conter a pressão dos preços — e até atinge bens manufaturados e a comida —, mas tem poder reduzido sobre os Serviços. 

O que fazer? Para a Federação, é urgente realizar um ajuste fiscal, de fato. A contenção estrutural dos gastos, reformando despesas obrigatórias, é o caminho mais “custoso”, do ponto de vista político, mas o ideal para recolocar o País em uma rota saudável. A longo prazo, permitirá a retomada do investimento e, então, um crescimento mais sustentável. Enquanto isso não for feito, o BC só terá o papel de reagir, como consegue, manejando os ciclos dos (altos) juros.