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Esse PT enganador

11/08/2012

Sรฃo Bernardo. Janeiro de 1983. Estou participando no Teatro Cacilda Becker da posse de Aron Galante, que me sucedeu no cargo de prefeito. Numa das primeiras filas os seis novos vereadores do Partido dos Trabalhadores que,  pela primeira vez, elegia representantes na Cรขmara. Estavam de cara fechada, braรงos cruzados, nรฃo aplaudiam qualquer dos atos que se praticavam nessa sessรฃo solene de posse de eleitos. Consideravam-se diferentes de quaisquer outros, arautos da moralidade, inaugurando o mandato num partido diferente que vinha, segundo os alardes da รฉpoca, para mudar os costumes polรญticos e extirpar da vida pรบblica o mal da corrupรงรฃo.
Os tempos passaram, o PT abastardou-se e nada mais se vรช daquele tรฃo apregoado moralismo na vida pรบblica. Os fatos estรฃo aรญ escancarados sรณ nรฃo os vendo quem nรฃo quer enxergar. O mensalรฃo รฉ o exemplo mais recente e, por ora, o mais eloquente. Para alguns analistas polรญticos esse lamentรกvel episรณdio de roubalheira dos cofres pรบblicos divide a histรณria do PT em “antes” e “depois” do mensalรฃo. Antes eram os tempos da bandeira รฉtica, nada de coligaรงรฃo com outros partidos, o que poderia manchar os propรณsitos de pureza e moralizaรงรฃo contidos em seus estatutos. Depois, รฉ a sua caminhada no exercรญcio do poder, especialmente nos altos escalรตes do governo central federal, conspurgando-se a legenda e seus correligionรกrios mandatรกrios nos postos mais elevados – e nos menos elevados, tambรฉm, – das administraรงรตes pรบblicas exercidas por petistas. Desnecessรกrio  citar exemplos concretos. O historiador Lincoln Secco, professor da USP, autor do livro A Histรณria do PT, refere-se ร  divisรฃo da trajetรณria da sigla em antes e depois do mensalรฃo que “derrubou o discurso pela รฉtica na polรญtica e retirou de cena os principais quadros dirigentes histรณricos do partido”. Diz mais, que “a direรงรฃo do PT literalmente se escondeu e poucos dirigentes tiveram coragem de aparecer em pรบblico para defender o partido”. O prof. Roberto Romano da cadeira de ร‰tica e Filosofia da Unicamp admite que esse รฉ um “episรณdio crucial na vida do partido; ele รฉ o coroamento de um processo interno que se desenhava muito antes” (ver o jornal O Estado de S. Paulo, ed. de 05/08/12, pรกg. A-8). ร‰ sabido de todos que o prรณprio presidente Lula, na ocasiรฃo, veio a pรบblico pedir desculpas ao povo brasileiro pelo episรณdio, dizendo-se ele mesmo traรญdo por companheiros. Nรฃo disse quais eram. Agora, no entanto, no calor do julgamento do caso pelo Supremo Tribunal, os petistas negam a existรชncia do rumoroso escรขndalo, alardeando em declaraรงรตes ร  mรญdia a “inocรชncia” dos autores da prรกtica dos crimes denunciados pela Procuradoria Geral da Repรบblica. Arrimam-se na alegada “falta de provas”. Assim vai se diluindo ao longo do tempo a proposta tรฃo alardeada pelo partido de inovaรงรฃo de costumes e de comportamentos na vida polรญtica do Brasil. Uma enganaรงรฃo que nรฃo resistiu sequer uma dรฉcada na vida do PT que se esqueceu do trabalhador aninhando-se no conforto do poder  e na disponibilidade da fartura dos cofres pรบblicos.

Tito Costa รฉ advogado, ex-prefeito de Sรฃo Bernardo do Campo e ex- deputado federal constituinte de 1988. E-mail: antoniotitocosta@uol.com.br