No dia 22 de julho do corrente ano o grande sociรณlogo Florestan Fernandes teria completado 100 anos, centenรกrio que foi celebrado por intelectuais brasileiros, especialmente pelos estudiosos de sua obra dedicada ao estudo do negro na sociedade brasileira. Eu o conheci na Cรขmara Federal, deputados constituintes, de 1988, ele e eu. De convรญvio afรกvel, com a simplicidade das grandes personalidades, foi sempre atencioso comigo, assim como com tantas pessoas que ele conhecia e respeitava, dizendo-me certa vez que tinha respeito por mim, o que me fez feliz, vindo de quem vinha.
Nรฃo conheรงo sua obra, especialmente “A Integraรงรฃo do Negro na Sociedade de Classes” como foi e ainda รฉ a nossa, especialmente no que refere ร classe negra, objeto de seus estudos, principalmente. Artigo de Antonio Brasil Jr. de quem retiro estas notas (Folha de S. Paulo, 26/07/2020) destaca o papel por ele Florestan desempenhado pelo estudo do negro e do racismo na resistรชncia ร desigualdade brasileira, ainda e sempre existente, em que pesem estudos e atรฉ convivรชncia dos brasileiros com eles.
Eu tive um colega negro na minha turma na Faculdade de Direito do Largo de Sรฃo Francisco em Sรฃo Paulo, Olegรกrio Borges com quem convivemos naturalmente, mas depois de formados ele foi morar em Campinas e nunca mais nos vimos. Outros dois colegas da mesma Turma de 1950 Calixto Antonio e Otto Joรฃo Gustavo Betke, radicados aqui emย Sรฃo Bernardo ambos tambรฉm atuando na profissรฃo de advogados e o Calixto nas aulas da nossa Faculdade de Direito, infelizmente jรก falecido.
Voltando ao Florestan Fernandes, nesta minha homenagem que lhe presto pelo centenรกrio de seu nascimento (1920-1995), devo lamentar o registro de que ele foi perseguido pelo regime militar vigente no Brasil desde 1964 atรฉ 1985, assim como tantos outros notรกveis que incomodavam a situaรงรฃo existente nesse perรญodo da nossa vida polรญtica.
Outro livro seu “A Integraรงรฃo” estuda a dinรขmica da reversรฃo de lealdades impostas ร populaรงรฃo negra que ascende socialmente ao processo que ele chama de acefalizaรงรฃo ocorrido porque o negro que melhora de condiรงรฃo รฉ a exceรงรฃo que confirma a regra para respeitar o pacto de silรชncio exigido pelo mito da democracia racial.
Destaco, ainda, do artigo de Antonio Brasil Jr. :”ร na investigaรงรฃo sobre as relaรงรตes entre brancos e negros em Sรฃo Paulo que Florestan, por dentro do drama negro, descortina uma sรฉrie de mecanismos sociais que, ao operar nas interaรงรตes concretas dos agentes, naturaliza as bases da autocracia burguesa”. Acrescentando que esses mecanismos permitem naturalizar as bases de uma ordem social do passado, de corte escravista e senhorial. ย
Sobre a preferรชncia por pessoas brancas no mercado de trabalho observa que a solidariedade entre brancos e negros sobretudo nas รกreas de serviรงo socialย lembra que “mesmo quando o negro ascendia (o que era raro) na escala social, mesmo assim os raros casos de ajuda mรบtua entre vizinhos e parentes se dissolviam na condiรงรฃo anรดmica da existรชncia”.
Destaco do artigo do Antonio Brasil Jr.: “A discussรฃo sobre a autocracia burguesa implica olhar para as bases do poder na sociedade e nรฃo somente para as formas de exercรญcio – formalmente democrรกticasย –ย do poder polรญtico. Agora que a autocracia saiu novamente das sombras, levar a sรฉrio o programa de pesquisa de Florestan Fernandes se torna urgente”. (cf. Folha de S. Paulo, ed. de 26/07/2020).
Fica aqui minha sincera homenagem ร memรณria e ao trabalho desse intelectual que ilustra e honra a galeria de nossos pensadores, perseguido pelo regime militarista no Brasil, num perรญodo hoje pertencente ร histรณria, felizmente. Seu trabalho de reflexรตes sobre o papel do racismo e dos privilรฉgios na sociedade brasileira estรก a exigir a atenรงรฃo da nossa intelectualidade, pois agora mais do que nuncaย a integraรงรฃo de esforรงos se impรตe para viver e fazerย com que o tema do racismo entre brancos eย negros se imponha nestesย tempos de ascenรงรฃo da autocracia. ย













