Mônica Inglez Opinião

Limites digitais

A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais costuma ser associada ao universo empresa-rial, às políticas de privacidade e aos programas de compliance. No entanto, seu alcance vai além das estruturas corporativas. A LGPD traz uma mensagem que ultrapassa contratos e cláusulas formais: ela nos ensina sobre limi-tes no ambiente digital – e essa lição também se aplica à vida pessoal.
A lógica central da LGPD está na proteção dos cidadãos. A lei estabelece que o tratamento de dados pessoais deve observar princípios como finalidade, necessidade, adequação, transparência e segurança. Em termos simples, isso significa que nem todo dado pode ser coletado, nem toda informação deve ser compartilhada, nem toda exposição é legítima. Existe um limite jurídico que protege a dignidade, a privacidade e o livre desenvolvimento da personalidade.
Essa reflexão é especialmente relevante em um contexto em que o compartilhamento se tornou automático. Fotos, vídeos, opiniões e informações pessoais são divulgados diariamente sem que se avalie o impacto futuro dessas publicações. A cultura da exposição permanente cria a falsa sensação de que tudo é permitido, desde que esteja nas redes sociais. A LGPD, contudo, reforça que a liberdade no ambiente digital não é absoluta.
Ainda que a lei preveja exceções para uso pessoal e não econômico, o fundamento que a sustenta – a proteção da pessoa – permanece válido. Compartilhar dados de terceiros sem autorização, divulgar imagens sem consentimento ou expor informações sensíveis pode gerar consequências jurídicas, independentemente de vínculo empresarial. O direito à privacidade e à imagem, garantido constitucionalmente, não se restringe às relações contratuais.
A LGPD também reforça a ideia de responsabilidade. Quem trata dados deve ser capaz de justificar sua conduta e demonstrar que agiu de forma proporcional e necessária. Essa lógica pode e deve orientar o comportamento individual no ambiente digital. Antes de publicar ou compartilhar, é prudente questionar: essa exposição é necessária? Pode gerar prejuízo a alguém? Respeita a dignidade da pessoa envolvida?
Mais do que uma norma técnica, a LGPD representa um convite à maturidade digital. Ela nos lembra que dados não são meras informações, mas extensões da própria personalidade. No mundo conectado, compreender e respeitar limites é a forma mais eficaz de prevenir conflitos e proteger direitos – inclusive fora do ambiente corporativo.