Estamos em 1946. Estou matriculadoย no primeiro ano do curso de bacharel na Faculdade de Direito da USP.ย Aluno de parcos recursos, morando em pensรฃo em Sรฃo Paulo, deslumbrava-me com a situaรงรฃo de estudante de direito, no templo situado no Largo de Sรฃo Francisco. Trabalhava entรฃoย como secretรกrio na Faculdade de Engenharia Industrial, situada na Rua Sรฃo Joaquim, bairro da Liberdade, na capital paulista. Por liberalidade do Padre Roberto Saboia de Medeiros, um jesuรญta inquieto e realizador,ย fundador dessa importante escola de engenharia, foi-me possรญvel ir ร s aulas pela manhรฃ, e ร tarde prestar serviรงos nessa que viria ser uma das mais importantes escolas de engenharia industrial em nosso paรญs.ย Depois da Rua Sรฃo Joaquim foi ela instalada em Sรฃo Bernardo do Campo para cuja transferรชncia tive eficiente participaรงรฃo.ย Jรก contei nesta coluna essa histรณria. Com as dificuldades naturais para um aluno pobre que precisava trabalhar para manter-se por conta prรณpria,ย encontrei na pessoa do Sr. Joaquim Inรกcio da Fonseca Saraiva importante apoio para a compra de livros indispensรกveis ร boa formaรงรฃo do futuro advogado.ย Ele era o proprietรกrio da Livraria Saraiva, situada no Largo do Ouvidor, a dois passos da Velha Academia de Direito.ย Homem afรกvel,ย facilitava o crรฉdito aos alunos necessitadosย para aquisiรงรฃo de livros de direito, que eles pagavam como podiam e quando podiam.ย Foi nessa condiรงรฃo de aluno pobre que eu o conheci, comprando livros em sua loja e pagando como me permitisse o meu salรกrio de funcionรกrio da FEI.ย Eย nรฃo havia limite para o crรฉdito desde que o devedor fosse pessoa sรฉria e responsรกvel. Guardei, assim, do velho Saraiva uma lembranรงa de gratidรฃo que ora relembro em face de notรญcias na imprensaย sobre as Livrarias Saraiva, agora em estado de dificuldades com suas 34 lojas ameaรงadas de despejo. O nomeย de Joaquim Inรกcio da Fonseca Saraiva figura nas notรญcias emย que oย complexo Saraivaย aparece como devedora de R$ 674 milhรตes de reais com a necessidade de uma gigantesca ginรกstica perante credores e poder judiciรกrio.ย E pensar que Joaquim Inรกcio da Fonseca Saraiva, imigrante portuguรชs, proprietรกrio de um sebo no Largo do Ouvidor, amigo e estimulador de estudantes de direito na vizinha Faculdade do Largo de Sรฃo Francisco,ย tambรฉm, por certo, partรญcipe do impรฉrio em que se transformou sua velha Livraria, talvez vivo nรฃo permitisseย que tal ocaso viesse a abater-se sobre um negรณcio ao qual se dedicara de corpo e alma. A velha Saraiva & Cia. do Largo do Ouvidor, jamais poderia imaginar um crescimento tรฃo grande, em vรกrios estados alรฉm de SP e a ameaรงa de um final melancรณlico para a memรณria de um empreendimento que tรฃo bons serviรงos prestara,ย ao longo dos tempos, ร cultura brasileira.
Livraria Saraiva
29 de julho de 2019













