O MASP โ Museu de Arte de Sรฃo Paulo Assis Chateaubriand apresenta, de 6 de marรงo a 7 de junho, a primeira exposiรงรฃo panorรขmica de Sandra Gamarra Heshiki (Lima, Peru, 1972). A mostra Sandra Gamarra Heshiki: rรฉplica reรบne mais de 70 obras, entre pinturas, esculturas, instalaรงรตes e vรญdeo, propondo uma retrospectiva dos รบltimos 25 anos de uma produรงรฃo que ressignifica obras de arte e objetos para contestar o sistema artรญstico e a heranรงa colonial que permeia os museus. A curadoria รฉ de Adriano Pedrosa, diretor artรญstico, MASP; Florencia Portocarrero, curadora independente; Guilherme Giufrida, curador assistente, MASP; e Sharon Lerner, diretora artรญstica do MALI โ Museo de Arte de Lima, instituiรงรฃo parceira na organizaรงรฃo e que exibirรก a mostra, em versรฃo adaptada, apรณs sua apresentaรงรฃo no MASP.

(Foto: Divulgaรงรฃo)
Em suas obras, a artista questiona o papel dos espaรงos culturais e como suas prรกticas impactam a produรงรฃo artรญstica. Essa crรญtica institucional motivou a criaรงรฃo, em 2002, do museu fictรญcio LiMac โ Museo de Arte Contemporรกneo de Lima. Esse museu imaginรกrio, que existe como arquivo em um website, respondia tanto ร ausรชncia de um museu de arte contemporรขnea em Lima na รฉpoca quanto ao modo como muitas instituiรงรตes ainda contam a histรณria a partir de um ponto de vista de matriz europeia.
โSe o museu รฉ um lugar a partir do qual a histรณria รฉ ditada, por que nรฃo criar um museu que, sob o mesmo manto de autoridade e permanรชncia institucional, conte uma histรณria diferente? Um museu que possa olhar para si mesmo, questionar-se, complexificar suas prรณprias narrativas e contar mais do que histรณrias de progressรฃo linearโ, afirma Gamarra.
Para evidenciar como a histรณria da arte รฉ construรญda por meio de recortes, exclusรตes e hierarquias, a cronologia clรกssica รฉ intencionalmente plagiada nessa exposiรงรฃo. โEm Rรฉplica, Gamarra reflete, literalmente, o espaรงo, sobretudo a cronologia dos museus enciclopรฉdicos, a matriz linear da histรณria tรฃo criticada por Lina Bo Bardi, mas que de algum modo รฉ hegemรดnica no modelo de organizaรงรฃo dos museus, tanto nas metrรณpoles como em suas ex-colรดnias. Assim, a artista produz aqui sua rรฉplica de uma exposiรงรฃo de parte de seu acervo-obra, convertendo-o em um museu com seus fragmentos e aglutinando marcadores destrinchados por toda a sua carreiraโ, afirma Giufrida. Assim, em Rรฉplica, as obras de Gamarra sรฃo apresentadas nos nรบcleos: โprรฉโcolonialโ, โcolonialโ, โpรณsโindependรชnciaโ, โmodernoโ e โcontemporรขneoโ, alรฉm de uma sala dedicada ao LiMac.
A produรงรฃo de rรฉplicas para ressignificar cรขnones da arte, subverter discursos colonizadores e resistir a estruturas excludentes รฉ central na obra de Gamarra. Em Recurso VII (2019), a artista parte das paisagens aparentemente pacรญficas de Pernambuco pintadas por Frans Post (Haarlem, Paรญses Baixos, 1612โ1680) durante missรตes europeias no Brasil. Na versรฃo da artista, esses cenรกrios sรฃo recriados com รณxido de ferro, matรฉria-prima usada por povos originรกrios nas Amรฉricas em pinturas rupestres e cerรขmicas. Alรฉm de reverenciar essas culturas ancestrais, o material vermelho escorre pela tela remetendo ao sangue e ร violรชncia da colonizaรงรฃo. A pintura tambรฉm tem uma faixa branca, elemento usado pela artista para diferenciar suas rรฉplicas das obras originais.
Esse recurso tambรฉm estรก presente em Duplo (2023), realizada na semana final da montagem de Histรณrias indรญgenas, da qual Gamarra foi uma das curadoras, no nรบcleo โPachakuti: o mundo de cabeรงa para baixoโ. Ao saber que a obra Habitante de las cordilleras del Perรบ [Habitante das cordilheiras do Peru] (1855), de Francisco Laso (Tacna, Peru, 1823 โ San Mateo, Peru, 1869) nรฃo viria para a exposiรงรฃo por problemas burocrรกticos em seu paรญs, a artista produziu sua prรณpria rรฉplica para preencher essa ausรชncia. A obra, porรฉm, nรฃo รฉ uma cรณpia idรชntica. Alรฉm da faixa branca, Gamarra apresenta a figura de Laso invertida, de cabeรงa para baixo. Essa alteraรงรฃo รฉ um exemplo direto de seu projeto de โinverter o museuโ e se conecta ao conceito de Pachakuti, termo de origem andina que pode ser traduzido como โo mundo de cabeรงa para baixoโ, referindo-se a transformaรงรตes radicais na ordem existente.
Sandra Gamarra Heshiki: rรฉplica integra a programaรงรฃo anual do MASP dedicada ร s Histรณrias latino-americanas. A agenda do ano tambรฉm inclui mostras de Carolina Caycedo, Claudia Alarcรณn e Silรคt, Colectivo Acciones de Arte, Damiรกn Ortega, Jesรบs Soto, La Chola Poblete, Manuel Herreros e Mateo Manaure, Pablo Delano, Rosa Elena Curruchich, Santiago Yahuarcani e Sol Calero.
SOBRE A ARTISTA
Sandra Gamarra Heshiki (Lima, Peru, 1972; vive e trabalha em Madri, Espanha) รฉ descendente de famรญlias com raรญzes andinas, afro-peruanas e japonesas. Formou-se em pintura pela Pontificia Universidad Catรณlica del Perรบ e, desde o final dos anos 1990, desenvolve uma prรกtica que articula, principalmente, pintura, crรญtica institucional e pensamento decolonial. ร a primeira artista nรฃo nascida na Espanha a representar o paรญs na Bienal de Veneza, na 60ยช ediรงรฃo do evento, em 2024, quando apresentou o projeto Pinacoteca Migrante. Alรฉm do MASP, sua obra tambรฉm integra coleรงรตes como MoMA (Nova York), Tate Modern (Londres), Museo Reina Sofรญa (Madri), MALI (Lima), entre outros.













