Lembro-me bem de uma certa madrugada em que meu pai chegou da rua e disse รก minha mรฃe: mataram o Vira Vira. Eu ouvi do meu quarto ao lado e, morrendo de medo, passei para a cama de meu irmรฃo Cide, encolhido do lado da parede. Ele tambรฉm ouvira a notรญcia, mas nem ligou.
Vira Vira era palhaรงo de um circo que passara pela cidade, se engraรงou com uma moรงa, juntou-se a ela e acabaram morando juntos. Essa foi sua desgraรงa, pois a tal tinha um namorado que nรฃo gostou da troca e acabou com o romance pouco antes de um ano desde que comeรงara.
Eu sempre tive medo de defuntos, mesmo sem os ver, como no caso do Vira Vira cujo cadรกver nem de longe eu vi. O medo desapareceu com o tempo. Pudera, meu pai dizia sempre que era preciso ter medo dos vivos, nรฃo dos mortos.
A histรณria voltou-me รก memรณria diante de curiosa notรญcia que li no jornal: um cidadรฃo que, quando crianรงa, tinha medo de velรณrios! Depois, homem feito, aos 56 anos, passou a trabalhar como coveiro no Cemitรฉrio da Consolaรงรฃo em Sรฃo Paulo. Entre suas tarefas cabia-lhe limpar as oferendas destinadas a orixรกs todos os dias. Sua rotina diรกria comeรงava com o cafรฉ da manhรฃ no cemitรฉrio, depois vestia o uniforme azul, enxada no ombro e seguia atรฉ o Cruzeiro das Almas onde sรฃo acesas velas para os mortos. Ali tambรฉm sรฃo colocadas oferendas para osย orixรกs pelos adeptos das religiรตes africanas, cabendo-lhe encher sacos e mais sacos de lixo todos os dias. E contou ao repรณrter que o entrevistava que encontrara, certa vez, duas cabeรงas de porco do mato em cima de um tacho de barro.
Eis aรญ a receita encontrada pelo agora experiente coveiro para curar-se dos medos de inofensivos velรณrios que antes tanto o apavoravam.













