Só o ser humano consegue mentir. Deliberadamente falsear a verdade. Mania, tara, doença? Com a palavra psiquiatras, psicólogos e psicoterapeutas.
Mas esse hábito persiste e há quem chegue a mentir com tanta convicção, que acredita na mentira como se fora verdade.
Coelho Neto era vítima de mentirosos. De um, em particular. Vizinho seu, o rapaz chegava a bater à sua porta, apenas para pregar-lhe mentiras. O escritor chega a mencionar o nome do mentiroso contumaz: Jaques Raimundo, professor em escola pública, irmão de um entomologista de renome, Benedito Raimundo.
A mentira alcançou os píncaros. Jaques foi um dia à casa de Coelho Neto para convidá-lo, em seu nome e no da esposa, para servir de padrinho a um filho recém-nascido. Coelho Neto, desvanecido, aceitou. Toda vez que se encontrava com o futuro compadre, perguntava pelo afilhado. Jaques dava notícias circunstanciadas, descrevendo até as particularidades das moléstias de que o pequeno havia sido acometido.
Com o passar do tempo, ao perceber que o batizado era sempre adiado, Neto descobriu que Jaques não tinha filho nenhum e sequer era casado. Quando comentou o caso com João Ribeiro, este contou que Benedito Raimundo era ainda mais mentiroso do que o irmão. Certa tarde, ao se despedir de João Ribeiro, Benedito disse: – “Desculpe-me não o levar em casa no meu automóvel. É que eu gostava do meu carro, mas um dia, ao sair da garagem, passei por cima de um cachorrinho de estimação de minha mulher. Por isso, vendi o carro!”.
Vizinhos de Benedito contaram a João Ribeiro que ao chegar em casa, Benedito grita, para que a vizinhança ouça: – “Ó José…Joaquim, Manuel! … Vocês não viram que a égua está sem alfafa? Como é que se deixa um animal puro-sangue sem cuidado, sem o tratamento que ele merece?!”
Contudo, no quintal do Benedito não dá para criar sequer uma galinha. Mentir é uma compulsão? Tem tratamento? Tem cura?












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