01/06/13
Sempre gostei muito das aves. Todas elas. Gosto de vรช-las livres, soltas, na terra ou no cรฉu.
De vez em quando sonho que estou recolhendo ovos das galinhas. Acordo feliz!
Meu pai nos criou cuidando das aves em um viveiro do tamanho de uma casa. Dentro dele ficava a casa do poรงo artesiano. Sobre a casa colocou uma รกrvore com seus galhos jรก secos e um tampo de tambor de รกlcool onde um pica-pau nos acordava bem cedo batendo seu bico nele fazendo um som parecido com uma metralhadora. Na extensรฃo desse viveiro, outro enorme, todos com estrutura de canos encaixados, com tela fina, com รกrvores dentro para que os pรกssaros fizessem seus ninhos. Havia mais dois anexos onde ficavam os pรกssaros menores, mas todos tinham ligaรงรฃo para que as pequenas aves tivessem acesso a todos eles.
Em baixo ficavam jacus, mutuns, saracuras e outras aves maiores. Tรญnhamos um tucano e uma arara. Os menores eram bicos de lacre, cardeais, canรกrios da terra, belga e do reino, saรญras, rolinhas, periquitos australianos, maritacas e muitos mais. Como meus pais tinham um casal de caseiros que cuidavam da horta, o senhor tambรฉm nos ajudava a cuidar das aves.
Como a comida atraรญa os ratos, eles faziam canais sob a terra e procriavam. De vez em quando meu pai chamava os cinco filhos e alguns de nossos amigos para a caรงada aos nocivos animais. Colocava รกgua com uma mangueira em um dos buracos e nรณs ficรกvamos nos outros, com paus, para atordoar os ratos quando tentavam escapar. Aรญ os pegรกvamos pelos rabos e colocรกvamos num balde com รกgua para que nรฃo fugissem. O resto ficava por conta de meu pai.
Tivemos um lindo pavรฃo e perus no galinheiro. De vez em quando meu pai levava o pavรฃo e o deixava pelo jardim a volta da casa, atรฉ que o deixou preso definitivamente com medo que os cachorros o atacassem.
As rolinhas procriaram tanto que colocamos uma arapuca dentro do viveiro colocando dentro quirera, e quando elas iam comer, puxรกvamos a cordinha. Elas iam em grupo, assim as pegรกvamos e soltรกvamos para viverem livres. Mesmo assim meu pai colocava alimento fora do viveiro para elas comerem.
Quando meu pai faleceu, minha mรฃe ainda conservou o viveiro que era uma atraรงรฃo na cidade. Mais tarde foi doando os pรกssaros atรฉ que doou tambรฉm a estrutura e as redes para dois amigos que tambรฉm amavam as aves.
Tenho um filho que morava em Cascavel, no Paranรก, e comeรงou a criar canรกrios de todas as raรงas. Eram lindos. Com as penas do branco, amarelo limรฃo atรฉ o vermelho. Alguns com as penas como se tivessem feito uma permanente. Tinha mais de 100 aves. Eu nรฃo gostava de vรช-los presos, mas canรกrios do reino nรฃo sรฃo encontrados soltos na natureza. Os filhotinhos nasciam, aquelas coisinhas feias, e logo se transformavam em lindas aves.
Um dia ele chegou com um presente para meu marido. Uma gaiola com um jovem canรกrio com suas penas em cor limรฃo e cinza e que cantava divinamente. Ficou na casa da praia alguns anos nos tempos que meu marido morou lรก. Quando o Theo faleceu eu o trouxe aqui para o apartamento. Morando no oitavo andar, ele ficou na sacada. Pessoas dos prรฉdios vizinhos me perguntavam de quem era um canรกrio que tinha um canto tรฃo lindo. Adivinhem meu orgulho em dizer que era meu.
Este ano ele comeรงou a trocar as penas e, como sempre quando isso acontece, parou de cantar. Estรก com os pezinhos deformados e pouco fica no poleiro. Eu coloco diariamente a folha de almeirรฃo que ele adora comer, o jilรณ e a vitamina, a mistura de alpiste e de vez em quando o ovo cozido e a maรงรฃ. Deve estar com mais de 10 anos. Agora descobri: Ele sรณ canta, e muito pouco, quando meus filhos, netos e cunhados chegam perto. Sempre passo uns pitos para ele: eu que cuido de vocรช e vocรช nรฃo me dรก bola!
Nรณs vamos envelhecendo e nossos animaizinhos tambรฉm, Todas as manhรฃs vou ver se ele ainda continua por aqui.
Qualquer dia sei que ele vai enfim voar..
Divanir Bellinghausen Coppini (Didi) รฉ escritora e voluntรกria em Sรฃo Bernardo













