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Mulheres, amor e castidade

22/12/12

No Seminรกrio de Pirapora do Bom Jesus onde me enfiaram aos treze anos de idade, ouvia dos padres toda a sorte de ameaรงas e castigos para os pecados da carne. Melhor dizendo, para os pecados contra a castidade, os tais pecados do sexo. Como se o sexo fosse uma espรฉcie de maldiรงรฃo em nossos corpos e nรฃo o instrumento criador da vida, fonte dos prazeres do corpo em suas manifestaรงรตes de amor, nas naturais relaรงรตes homem-mulher.  As ameaรงas dos padres vinham nos sermรตes das missas de domingo, no confessionรกrio (obrigatรณrias confissรตes semanais), nas aulas, sempre envoltas na presunรงรฃo de que, adolescentes, em plena puberdade, estarรญamos nas masturbaรงรตes cometendo pecado contra a castidade e ofendendo a Deus.  E lรก vinha a invocaรงรฃo ao Evangelho de Matheus, segundo o qual “quem olhar para uma mulher e desejar possuรญ-la jรก estarรก praticando adultรฉrio em seu coraรงรฃo” (Mt 27.28).
Num interessante livro sobre carta que Floria Emilia escreve ao seu amante Aurรฉlio Agostinho (sim senhor, santo Agostinho), Jostein Gaarder, autor de “O Mundo de Sofia”, revela-nos curiosas passagens da vida e das aventuras amorosas de um dos maiores filรณsofos e teรณlogos do cristianismo, precisamente, o autor do clรกssico Confissรตes.  O livro de Gaarder intitula-se Vita Brevis (Companhia das Letras/Sรฃo Paulo-1998).
A carta de Flora Emilia para Agostinho, pai do filho de ambos Adeodato (dado a Deus) รฉ escrita em latim e o autor conta que a adquiriu num sebo em Buenos Aires, no conhecido Bairro Santelmo, em 1995.  O Codex Floriae, tem esta introduรงรฃo: “Saudaรงรตes de Flรณria Emilia a Aurรฉlio Agostinho, bispo de Hipona”. Agostinho foi obrigado por sua mรฃe Mรดnica (depois, santa Mรดnica) a abandonar Flรณria, sua amante durante anos, a fim de se casar com uma jovem ainda impรบbere. No Livro VI, 15, das Confissรตes escreve ele: “Quando de mim foi arrebatada a mulher com quem vivia, meu coraรงรฃo que lhe era afeiรงoadissimo, ficou profundamente ferido e sangrou por muito tempo”.  Diz ela, em texto comovente, que “tentaria engolir a desgastante palavra ยดcontinรชncia` que ainda reside em sua mente (dele) como um fardo pesado”. Lembrando que Deus nรฃo criou o homem para se castrar Flรณria se diz assediada pelo medo “daquilo que os homens da Igreja possam um dia fazer a mulheres como eu”. ร‰ dos teรณlogos que tenho medo, brada ela, “pois aquele que faz mal a alguรฉm ameaรงa a todos”, citando palavras das Confissรตes, onde Agostinho fala da “concupiscรชncia dos olhos” (Confissรตes, X, 35).  E acrescenta ela: “Renuncรญas ao amor entre homem e mulher, mas o fazes em nome de Deus; e se Ele existe, que te perdoe, mas talvez venhas a ser julgado um dia por todas as alegrias da vida ร s quais deste as costas”.
Para tornar-se santo e nรฃo mais pecar contra a castidade, Agostinho devia casar-se com a menor impรบbere, por imposiรงรฃo de sua mรฃe, e esquecer Floria. Tem razรฃo nosso poeta Mรกrio de Andrade: “existirem mรฃes, isso รฉ um caso sรฉrio, pois a mรฃe atrapalha a vida da gente”. Principalmente, quando mรฃes sรฃo prepotentes e dominadoras, como a Mรดnica, mรฃe de Agostinho, festejado doutor da Igreja.

Tito Costa รฉ advogado, ex-prefeito de Sรฃo Bernardo do Campo e ex-deputado federal constituinte de 1988. E-mail: antoniotitocosta@uol.com.br