AME Memórias de São Bernardo

O anjo da floresta

Professora Elisabeth de Oliveira Montoro (Fonte: Revista Panorama,1956)

Há quase 70 nos, uma jovem professora, recém-formada, procedente da cidade de Batatais, chegava a São Bernardo em busca de emprego. Uma tia, que aqui residia, havia informado sobre uma vaga para dar aulas existente na cidade, que ainda não havia sido preenchida. Era o final da década de 50.
Muito animada, sabendo que São Bernardo estava crescendo, chegou e apresentou-se como candidata à vaga de professora. Foi, então, admitida e encaminhada ao local de trabalho. Ficava bem distante do Centro da cidade, no Riacho Grande, muitos quilômetros além da entrada do bairro. Teria, que residir no local, anexo à escola. Às segundas-feiras, um Jeep da Prefeitura a levaria ao local e, no sábado à tarde, a traria para o Centro de São Bernardo, onde ficaria na casa de sua tia. Mesmo diante do desafio da distância, entre outros tantos, ela assumiu a vaga.
A casa era bem simples e rústica: fogão a lenha, sem água encanada e sem energia elétrica. Pela ma-nhã, ela ministrava aulas de reforço escolar, à tarde, aulas multisseriadas e, à noite, alfabetização de adultos à luz de lampiões. Nos intervalos entre um período e outro conciliava o preparo da alimentação e aulas de catecismo, pois não havia igreja próxima. Sempre ocupada, conseguia afastar um pouco a saudade de casa, além da solidão, visto que era muito jovem e sentia falta tanto da família quanto de amigas.
As principais atividades da comunidade eram a extração de madeira e a extração de caulim, além da pesca, pois a Represa Billings era próxima. As famílias lutavam com dificuldades, mas valorizavam o trabalho da professora e ela contava com o respeito dos alunos. As belezas naturais do lugar surpreendiam com os tons da vegetação e o colorido dos manacás-da-serra, margeando a represa, refletidos em suas águas, além do canto da passarinhada ao amanhecer e da típica neblina são-bernardense. Algum medo dos ruídos noturnos a mantinham em alerta e, certa vez, entre os gravetos que os alunos traziam para ela acender o fogão apareceu uma cobra, que por sorte estava interessada em uma outra presa e não a atacou.
Por seu trabalho incansável e nobre como Professora e como Catequista o Padre Fiorente Elena, vigário da Igreja Matriz de São Bernardo – a Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem – a chamava de “Anjo da Floresta’’, fato que se transformou em matéria da revista Panorama de agosto de 1956.
Seu nome: Elisabeth de Oliveira Montoro. Após 3três anos nesta vivência pedagógica e humana no Riacho Grande, casou-se e seguiu a carreira no magistério público estadual, dedicando-se com empenho, competência e motivação na formação de seus alunos. Em São Bernardo atuou na E.E. Professora Luiza Collaço Q.Fonseca e E.E. Professor Antonio Nascimento, onde aposentou-se. Lúcida e atuante, com mais de 90 anos, narra a sua história profissional com emoção, realismo e entusiasmo, sendo um exemplo e inspiração para as novas gerações de educadores e para a nossa cidade.

Célia Guiesser – integrante da AME (Associação dos Amigos da Memória de São Bernardo).

Balsa Riacho Grande (Fonte: Fotos Antigas de São Bernardo)

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