AME Memórias de São Bernardo

O apito da guarda noturna na década de 1950

Rua Marechal Deodoro, nos anos de 1950 (Acervo: Centro de Memória de São Bernardo)

Lembro-me bem da fase bucólica de São Bernardo nos idos de 1950, quando ainda chamávamos o centro de nossa cidade de Vila. Nesta época, ouvia-se à noite o apito do trem que passava lá pelos lados de Ribeirão Pires, distante muitos quilômetros, da minha casa da Rua Américo Brasiliense, Centro de São Bernardo.
Escutava-se o tilintar do contato das bolas de bilhar que vinha do Bar do Ramiro, que ficava na Rua Mal. Deodoro e o som do contato das bolas de bocha, encontrando-se umas com as outras lá do Bar do Abraão, na Rua Silva Jardim. Também, chegava facilmente até nós, o som do balançar das grandes árvores existentes no bosque da casa do Juca Setti, meu tio-avô, plantadas ao lado da casa dele, situada na esquina da Rua Américo Brasiliense com a Rua Marechal Deodoro, Neste contexto, como crianças de 9 a 12 anos de idade, a maioria de nossos temores eram induzidos ao imaginário e levavam-nos às lendas do saci-pererê, mula sem cabeça e outros tipos folclóricos.
Felizmente, nessa época, os poucos perigos existentes advinham de alguns larápios na tentativa de roubar algo nos quintais de nossas casas, à noite – o famoso “ladrão de galinhas”, como eram chamados na época. Anos mais tarde, a preocupação era sair do Cine São Bernardo, de propriedade de Francisco Miele e voltar para casa, tarde da noite, pois à medida em que as pessoas iam entrando nas ruas transversais da Marechal Deodoro, sabíamos que estaríamos sós para chegarmos em casa e com uma fraca iluminação pública existente.
O simples som de nossos calçados na rua deserta no último trecho, já nos assustava. Desta forma, tí-nhamos a nos proteger o serviço da Guarda Noturna, que chamávamos de Grilo, em alusão ao apito que soava ao passar pelo nosso quarteirão, que além de nos comunicar sua presença, também fazia contato com algum parceiro que se encontrava próximo dali. Para isto, era mantida em nossas casas, fixada na fachada frontal, uma placa, indicando que aquelas moradias ti-nham a proteção da Guarda Noturna – para isso, os moradores contribuíam mensalmente com um valor para garantirem melhor segurança. Nesta matéria, acompa-nha a imagem de uma placa original, um tanto danificada.
Nela tem a inscrição GN sobreposta pela inscrição S.B.do Campo. Esta placa, foi resgatada durante a demolição de uma casa na Rua Municipal e hoje, faz parte de meu acervo – foi o que nos restou de lembrança dessa época.

Placa da antiga Guarda Noturna de SBC, fixada nas casas pagantes pelo serviço (Foto: Elexina D’Angelo)