Uncategorized

O cachorro

O sempre saudoso prefeito Lauro Gomes tinha sobre sua mesa de trabalho uma placa com estes dizeres: mais conheรงo os homens, mais gosto dos cachorros. Exageros ร  parte, nรฃo resta dรบvida, mesmo para os que nรฃo morrem de amores por cรฃes, que a fidelidade destes tem sido sempre tema para conversas e inspiraรงรฃo para a arte, inclusive na literatura. E hรก os fanรกticos que se associam aos clubes da categoria, mulheres especialmente as que vivem sรณ, que mantรชm o animal na base de um ente familiar, chamam de filho e o tratam como tal. Descubro nos meus guardados um poema do russo Ivan Turguรชniev, traduzido por Rubens Figueiredo, exemplar no destaque para a associaรงรฃo e, de certa forma, a identificaรงรฃo homem-cachorro. A poesia รฉ em verso livre, como um colรณquio, que reproduzo:
โ€œNรณs dois no quarto: meu cachorro e eu. Lรก fora a tempestade uiva, desenfreada, assustadora./O cachorro estรก sentado ร  minha frente e me olha direto nos olhos./Eu tambรฉm olho para os olhos dele./Parece que quer me dizer alguma coisa. ร‰ mudo, sem fala, nem entende a si mesmo โ€“ mas eu o entendo./Entendo que neste instante, nele e em mim, vive o mesmo sentimento e entre nรณs nรฃo existe a menor diferenรงa. Somos idรชnticos; em cada um, arde e brilha a mesma chama, pequena e trรชmula./A morte virรก voando, vai abanar sobre essa chama suas asas frias e largas…/E fim!/Depois, quem poderรก distinguir que chama ardeu em cada um de nรณs?/Nรฃo! Nรฃo sรฃo um animal e um homem que se olham…/Sรฃo dois pares de olhos idรชnticos, concentrados um no outro./E em cada par de olhos, no animal e no homem, a mesma vida assustada tenta se agarrar no outroโ€.
Amiga minha tinha uma cachorrinha yorkshire que, segundo ela, sรณ faltava falar. Eram tais os carinhos dela para com a cadelinha que o veterinรกrio certa vez lhe disse: o animalzinho precisa levar o mais possรญvel uma vida de cachorro! E, em geral, รฉ assim mesmo, a identificaรงรฃo entre uma pessoa e seu cรฃo de estimaรงรฃo. Mas daรญ, a tratar o animal como gente, vai um exagero e um acinte aos que, como pessoas carentes, levam verdadeira vida de cachorro. Pois nรฃo รฉ que existem confeitarias a produzir guloseimas para os cรฃes ?  E clรญnicas com serviรงos de psicรณlogos para eles ? Sem dรบvida hรก um mundo ร  parte nessa coisa de cachorros tratados como gente, lembrando o foclรณrico ministro do trabalho, no governo Collor, o sindicalista Antonio Magri para quem โ€œo cachorro รฉ tambรฉm um ser humanoโ€.
Pode?

Tito Costa รฉ advogado, ex-prefeito de Sรฃo Bernardo do Campo e ex- deputado federal constituinte de 1988. E-mail: antoniotitocosta@uol.com.br