Editorial

O discurso da estupidez

โ€œDuas coisas sรฃo infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relaรงรฃo ao universo, ainda nรฃo tenho certeza absolutaโ€ afirmou o fรญsico e teรณrico alemรฃo Albert Einstein. Jรก Claude Chabrol, diretor de cinema, produtor de filmes, ator e roteirista francรชs, considerado por muitos crรญticos o inaugurador da Nouvelle Vague, disse: โ€œA estupidez รฉ infinitamente mais fascinante do que a inteligรชncia. A inteligรชncia tem seus limites, a estupidez nรฃoโ€.
Sigmund Freud, em 1913, antes mesmo de vivenciar o perรญodo sombrio da gripe espanhola, escrevera que nรฃo havia “nada mais caro na vida que a doenรงa – e a estupidez”. As trรชs frases nรฃo poderiam ilustrar melhor o atual momento que se vive no Brasil. Com quase 400 mil mortes de Covid-19 no Paรญs, uma populaรงรฃo quase cansada e esgotada pelas cumprir medidas de isolamento social, a vacinaรงรฃo deveria ser algo desejado por todos, de maneira urgente.
Mas, hรก uma ausรชncia de discernimento, da capacidade de avaliar as coisas com bom senso e clareza, sem forma, nem rosto. Hรก apenas vociferaรงรตes, discursos marcados pelo รณdio, que visam impedir qualquer possibilidade de diรกlogo. O รณdio proporciona uma visรฃo obtusa da realidade, um garatujar unรญssono, reaรงรตes truculentas, um verdadeiro descalabro, nรฃo sรณ ร  democracia, mas a simples reflexรฃo, reduzindo totalmente a inteligรชncia. Ele constrรณi, de maneira grosseira, uma realidade paralela, a ser seguida, sem que seja necessรกrio fazer reflexรตes. Hรก um amplo arsenal de โ€œverdadesโ€ incontestรกveis, muitas vezes meras fake news, que transfiguram o absurdo num verdadeiro espetรกculo da estupidez.
Entรฃo, tudo se torna cativante, atraente, ao ponto das pessoas ficaram cegas, ou surdas para tudo aquilo que destoa, diverge, contrรกria. A todo custo, evita-se a complexidade que, simplesmente, o viver proporciona.
No auge do nรบmero de casos e mortes por coronavรญrus no Paรญs, desde o inรญcio da pandemia, no ano passado, hรก muitos brasileiros que desconfiam da letalidade do vรญrus, outros, que rejeitam as poucas doses vacinas disponรญveis no Paรญs, e outros, que parecem jรก ter se acostumado a conviver com a morte, com a dor, com o luto. Esses, foram alimentados com mรกximas: โ€œTodos vรฃo morrer um diaโ€, โ€œParece que sรณ se morre de Covid no Brasilโ€, โ€œMorreram pessoas, mas eu nรฃoโ€, entre outros.
A maior tragรฉdia sanitรกria da histรณria brasileira รฉ gerada por um inimigo invisรญvel e que, por isso, acaba sendo invisรญvel para muitos. A morte virou um nรบmero, uma macabra estatรญstica. A urgรชncia, a pressa e a ilusรฃo da volta ao normal, esconde uma espรฉcie de negaรงรฃo coletiva. ร‰ preciso viver, desesperadamente, hoje, aqui e agora. Nada pode ser mais adiado.
A situaรงรฃo sanitรกria parece estar longe do controle. Enquanto isso, o conformismo ganha cada vez mais espaรงo. Hรก uma aceitaรงรฃo social pela morte. A morte por Covid tornou-se mais uma tragรฉdia no Brasil, somada a da violรชncia, a da corrupรงรฃo, a desigualdade social, entre outras realidades marcantes tupiniquins. O discurso de morreu porque “deu azar” ou de que quem tem comorbidades iria “acabar morrendo mesmoโ€, confirma e conforta quem nega as mortes, mostrando-nos imunes a elas.
Nunca haverรก โ€œordemโ€, quando mais โ€œprogressoโ€, num paรญs em que paira o conformismo, a estupidez em relaรงรฃo a maior crise sanitรกria do mundo, enquanto houver โ€œquem morreu รฉ โ€˜o outro’, o โ€˜da periferia’, o que โ€˜tinha comorbidades’, o que โ€˜nรฃo seguiu as normas sanitรกrias’. As mortes nรฃo sรฃo inevitรกveis, nem essas pessoas morreriam de qualquer jeito. O Brasil nรฃo estarรก livre de novos ciclos de tragรฉdia, com UTIs lotadas e falta insumos hospitalares, enquanto nรฃo houver uniรฃo, planejamento e vacinas para todos.