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O mundo simples que nos envolve

Oย  saudoso escritor e poeta Rubem Alves num de seus livros mais interessantes (e ele nos deixou vรกrios) lembra das coisas simples que nem sempre valorizamos, mas que nos encantam quando observadas e que fazem parte de nossas vidas,ย  ao nosso redor, em nosso dia-a-dia. Ele menciona o poeta inglรชs William Blake num poema em que diz โ€œVer um mundo num grรฃo de areia e um cรฉu numa flor silvestreโ€;ย  e Octavio Paz, mexicano, lembrandoย  que โ€œtodos os dias atravessamos a mesma rua ou o mesmoย  jardim ou mesmo muro, e de repente, num dia qualquer, a rua dรก para um outro mundo, nossos olhos batem no mesmo jardimย  que acaba de nascer, o muro fatigado se cobre de signosโ€.
Rubem lembra, tambรฉm:ย  aย  heranรงa que recebeu de seu pai foi um peso de papel de vidro esverdeado e que โ€œquando olho para o peso de papel, nรฃo vejo peso de papel, uma insignificรขncia. Vejo o rosto de meu paiโ€. (pรกg. 95 do livro A Ostra Feliz Nรฃo Faz Pรฉrola,ย  Editoraย  Planeta-SP, 2ยช ediรงรฃo).
Eu tambรฉm vejo o rosto de meu pai num objeto daย  maior simplicidade que guardo com carinho: uma pequena tรกbua, miniatura de uma semelhanteย  de cortar carne, com as iniciais de seu nome e uma data: JVC โ€“ 3-3-63,ย  Josรฉ Vicente Costa, especial para picar fumoย  com o qual fazia seus cigarros de palha que ele fumava e que produzia em sรฉrie bem guardada para as tragadas posteriores.
Um de meus filhos, mais observador, pergunta-me para que serve essaย  taboinha e eu respondo: ela serve como uma lembranรงa envolvendo umaย  saudade.ย  Repetindo o Rubem Alves quando se refere a um peso de papel que guarda com carinho, onde ele vรช o rosto do pai. euย  tambรฉm revejo o rosto do meu pai na pequenina tรกbua onde sua letra deixou gravadas as iniciais de seu nome e uma data. Uma coisa tรฃo simples, uma bobagem que para mim guarda um semblante invisรญvel de um pai ausente para sempre.
Interessante que agora ao 96 anos de idade eu tenho do pai lembranรงas como essa da taboinha onde picava fumo de corda para as delicias de um cigarro mais forte do que os comprados.
Quando eu, solteiro ainda, ligava pra minha casa em Torrinha, ele atendia com a mesma frase carinhosa: โ€œfala, fioโ€ (esse fio (filho) soava como uma carรญcia na simplicidade de uma voz amiga, sempre distante e sempre tรฃo perto.
Eis as consideraรงรตes que me sugere uma pequena tรกbua de madeira com uma inscriรงรฃo a mรฃo, de alguรฉm que nunca mais verei.