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Odette Bellinghausen, a senhora do piano

18/02/2012

Meu filho Renato descobriu esta crรดnica sobre minha mรฃe Odette de autoria do professor Renato Ladeia. Vai principalmente para meus amigos que um dia conviveram com ela… e tambรฉm para amigos que convivem diariamente comigo.
Aquela senhora tinha um piano, mas para que serve um piano? Diz um poema do Alberto Caieiro, heterรดnimo de Fernando Pessoa. Para mim que ao passar pela Rua Joรฃo Pessoa e ouvia em meio ao barulho do trรขnsito o suave som de um piano, servia e muito para abrandar a aridez da cidade. Quem era a senhora do piano vim sabรช-lo algum tempo depois. Era Odete Tavares Belling-hausen, a primeira professora de piano da cidade e em cujas mรฃos muitas crianรงas passaram para aprender as primeiras notas musicais.
A cidade foi crescendo e a casa dela, que em tempos passados desfrutava um ar ainda bucรณlico, transformou-se em passagem obrigatรณria de carros e pedestres. O comรฉrcio foi se ampliando e com ele mais movimento. Mas dona Odete, continuou o seu cotidiano entre o grande jardim com seus caramanchรตes e o piano. Um dia atiraram uma pedra na sua janela, que quebrou a vidraรงa e caiu bem em cima do piano, um velho alemรฃo de meia cauda. Uma ato de absurda agressรฃo, sinal de tempos difรญceis. Aquilo poderia ser um aviso para que tomasse cuidado, pois morava sozinha naquele casarรฃo da dรฉcada de cinqรผenta. Mas ela era corajosa e nรฃo se intimidou, apesar de andar com dificuldade e com os sinais da idade alterando a sua percepรงรฃo das coisas e do mundo. Estava presente em todos os eventos culturais da cidade. Lembro-me de uma homenagem que recebeu das escolas de mรบsica da cidade e como o mestre de cerimรดnia faltou, tive a honra de ler a sua biografia no teatro.
Numa outa vez a encontramos numa despedida de uma amiga comum, Marlita Brandner Valilatti , tambรฉm professora de piano, que estava de mudanรงa para a รustria. Como estava sรณ, oferecemos uma carona e ela insistiu que entrรกssemos em sua casa para um cafรฉ ou coisa assim. Concordamos, apesar do adiantado da hora. Ela queria um pouco de companhia e nรฃo tivemos coragem de negรก-la. Apressou-se em mostrar suas coisas, os quadros que ela pintou sobre a antiga paisagem da cidade, suas composiรงรตes, como a Japonesinha Alegre da qual ganhamos uma cรณpia da partitura. Ela tocou com alguma dificuldade, pois as suas mรฃos jรก nรฃo obedeciam mais a sua mente ainda inquieta.
Resolveu oferecer-nos uma bebida, um licorzinho caseiro, que tambรฉm aceitamos. Mas ela trouxe trรชs doses, inclusive para minha filha Mariane, com apenas dez anos. Desculpou-se, mas como o licor era bom, tomei as duas. Terminamos a visita com a sensaรงรฃo de que ela ainda queria conversar mais, contar causos, suas lembranรงas, suas memรณrias de uma mulher idosa que conheceu muita gente, que viveu fatos jรก apagados da histรณria da cidade. Pensamos em voltar qualquer dia para fazer algum registro de suas memรณrias que em pouco tempo se apagaria para sempre, mas nรฃo cumprimos a promessa.
Hoje a casa de esquina em que havia uma senhora que tinha um piano, รฉ apenas um estacionamento, preservando apenas um muro original com seus balaustres de รฉpoca. O som do piano ainda ressoa nas tardes frias de inverno, mas ninguรฉm ouve. O aroma das camรฉlias do seu jardim e ainda o doce sabor do licor de jabuticabas ainda estรฃo presentes em minhas lembranรงas. O som dos mortos รฉ inaudรญvel e somente para aqueles iniciados na arte de lembrar sem ver e sem ouvir รฉ possรญvel dentro das impossibilidades.
Abraรงo, Didi

Divanir Bellinghausen Coppini (Didi) รฉ escritora e voluntรกria em Sรฃo Bernardo – e-mail: dibcoppini@uol.com.br

– e-mail: dibcoppini@uol.com.br