Jรก registrei aqui a existรชncia do livro de Joรฃo Silvรฉrio Trevisan, mas volto a ele nesse dia dedicado aos pais. O tรญtulo do livro รฉ o que consta do nome desta crรดnica, que ora registro no domingo dedicado a eles, os pais. Agora mais do que nunca, pois grande nรบmero de pais acha-se confinado em seus lares nรฃo tanto pela data a eles dedicada, mas desta vez tambรฉm porย circunstรขncia muito diferente da de outros anos. Estamos na pandemia da presenรงa de um mal que se abate por todo o mundo – o tal do coronavรญrus espalhando terror e mortes por esse mundo a fora.
O livro รฉ todo ele um hino de terror ร figura do pai, um pai diferente no modo de tratar do filho queย usa dessa narrativa paraย revelar sua tristeza e seu inconformismo em relaรงรฃo ao desencontro entre os dois. E, por fim, a redenรงรฃo, a transformaรงรฃo do temor e do รณdio numa celebraรงรฃo de amor do autor pelo pai jรก falecido.
As suas lembranรงasย sobre um relacionamento diferente, mas por fim transformado em amor e perdรฃo. Ele se redime e explica: รฉ com o peso incalculรกvel de sua ausรชncia que a figura paterna tem marcado sua vida e sua literatura. Embora o pai tivesse sido para ele um verdadeiro tirano, com maus tratos e indiferenรงa, mas que ele no fim acaba por entender sem tempo para redimir-se; esquecendo as maldadesย paternasย que recebe por compreensรฃo e amor, que ele acaba por aceitar “nesse tempo propรญcio a lembranรงas que รฉ a velhice”. O pai foi tรฃo maldoso para com ele que num abraรงo pรณstumo acabou por compreender que seu pai precisava de proteรงรฃo. E ele deu-a ao pai.
O alcoolismo tomou conta dele, o pai foi para o autor “uma buscaย de รชxtase por via do qual buscou superar-se, pois em linha gerais ele se julgou um ateu. Entanto, tendo sido seminarista ele diz: “em linhas gerais eu me julgoย um ateu… talvez graรงas a Deus – pois nรฃo abro mรฃo do sagrado “talvez tenha sido um dos sinais mais inequรญvocos das benรงรฃos queย a vida despejou em mim”.
No fundo, ele foi um filho exemplar, sem saber que era, bem por isso invoca o perdรฃo do Pai “que sempre esteve no meu horizonte como um lixo a ser varrido cuja fragilidade serviu de pretexto para minha recusa em crescer, a quem usei para dissimular os meus defeitos morais, cuja dor sempre foi por mim ignorada. Pai que me ensinou tantas coisas em sua suposta ignorรขncia. Pai que me compeliuย a procurar na misericรณrdia a artรฉria central do coraรงรฃo humano, que me fez buscar o amor como um desgraรงado em busca da salvaรงรฃo; Pai a quem prometo perseguir o perdรฃo como fio condutor da minha redenรงรฃo. Pai, nรฃo hรก perdรฃo que nรฃo seja mรบtuo. Peรงo perdรฃo, meu pai”…
Nos estertores finais desse seu grito de lembranรงas ou saudades ele fala do pai que existiu, que lhe deu um espermatozoide, esse comeรงo e assim eu gerei um pai. E desabafa: “De repente senti um arroubo interior do menino que apanhava do pai alcoรณlatra com tapaรงos na cabeรงaย e pontapรฉs no trazeiro, chorei. E naquele choro me dei conta de que aquele garoto tinha crescido, aprendera a arte de contar histรณrias, fazer perguntas ao mundo e se aproximar dos mistรฉrios da alma humana.” Esse seu livro, diz ele, ” foi-meย uma ressurreiรงรฃo”.













