Cultura & Lazer

Professora da Mackenzie Rio analisa o que realmente explica bem-estar nas férias

O imaginário popular vende férias como um grande espetáculo. É como se o descanso só valesse se viesse embalado em emoção intensa, cenários novos e uma agenda impecável, quase profissional. A gente passa o ano inteiro acumulando exaustão e, quando finalmente chega o momento de parar, monta um roteiro tão cheio de expectativas que o descanso fica espremido no intervalo entre check-ins, passeios e fotos instagramáveis. Compromissos inadiáveis com a diversão.

É um padrão comum. Quem decide “compensar o ano difícil” pode planejar viagens densas, cheias de deslocamentos, eventos e checklists para provar que o descanso está funcionando. A mente, no entanto, não se refaz sob pressão. Intensidade demais produz o efeito contrário: a sensação de que as férias passaram voando, mas a energia não voltou junto.

Os exemplos se multiplicam. Alguém compra uma viagem impulsiva embalado pelo pensamento “eu mereço”, mas volta com estresse financeiro. Ou passa dias inteiros tirando fotos e, quando chega em casa, percebe que não viveu o lugar, apenas documentou pontos turísticos. Shows e eventos prometem alegria catártica, mas deixam a pessoa com ressaca emocional.

Até a personalidade entra na equação. Introvertidos se sentem culpados por não gostarem de férias com muita gente; extrovertidos acham que descansar quieto é desperdício. Casais brigam porque cada um imaginou férias diferentes das que conseguiram ter, e a família fica num palco cheio de expectativas frustradas.

Enquanto isso, cresce o consumo de experiências como marca de status. Pesquisas mostram que “viver momentos” parece mais importante que “descansar”. É um paradoxo muito elegante, e até sedutor: queremos descanso, mas compramos intensidade.

Bem-estar nas férias não depende do destino, e sim da qualidade psicológica da experiência. Descanso real exige desconexão mínima da rotina e das obrigações, sentir que se tem escolha sobre o ritmo do dia, curtir relações significativas e ter espaço mental, não apenas paisagens bonitas. Quando expectativas são infladas, a queda é quase inevitável.

Muita gente volta frustrada porque tenta replicar a viagem perfeita de influenciadores, esquecendo que aquela perfeição é um recorte, não uma vivência. E muitas pessoas que ficam em casa descobrem que descansaram mais do que se tivessem viajado, justamente porque não transformaram o descanso em desempenho.

Poderia dizer que há um segredo para evitar isso, mas não é segredo, é só um desafio: definir qual tipo de descanso você precisa antes de decidir para onde ir. Talvez seja silêncio. Talvez seja companhia. Talvez seja tempo livre, não eventos. Talvez seja ficar longe do celular, não acumulando cliques. O descanso verdadeiro nasce quando a experiência cabe emocionalmente na vida de quem a vive. Esse é o tipo de férias que recarrega não só a agenda, mas a existência. 

Sibele Aquino, Doutora em Psicologia Social pela PUC Rio, Professora na Mackenzie Rio,
Pesquisadora em Psicologia do Consumidor e Psicologia Positiva

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