Editorial

Recorde em recuperação judicial

   Tok&Stok, Grupo Pão de Açúcar, Grupo Dia, St. Marche, Casas Bahia, Marabraz e Habib’s. O que todas essas grandes empresas têm em comum? Recuperações judiciais ou extrajudiciais. O Brasil atingiu o maior volume de dívidas em processos de recuperação judicial e extrajudicial da história, superando R$ 180 bilhões.

A recuperação judicial funciona, para as empresas, como uma UTI para pacientes em estado grave. Ao suspender temporariamente a cobrança das dívidas, oferece fôlego para que a empresa possa reorganizar suas finanças, negociar com credores e continuar funcionando. Quando não é possível estabilizar a situação a tempo, o desfecho pode ser a falência.

Nos últimos anos, foram Tok&Stok, Grupo Pão de Açúcar, Grupo Dia, St. Marche, entre outros. Em 2026, apenas na semana passada, duas importantes empresas do varejo nacional recorreram à recuperação judicial: a Casas Bahia, para reestruturar dívidas de R$ 17 bilhões, e a Marabraz, com um passivo de R$ 140 milhões. Além dessas empresas, a OSX Brasil, companhia controlada por Eike Batista e atualmente sob gestão judicial, avançou em sua segunda recuperação judicial após conseguir o apoio da maior parte dos credores ao plano para reestruturar suas dívidas.

Quando tantas recuperações judiciais ou extrajudiciais ocorrem, praticamente, ao mesmo, em empresas de diferentes setores, a explicação não advém por erros de cada uma delas, mas do no ambiente que todas operam.

O Brasil registrou no primeiro semestre deste ano 6.341 empresas em recuperação judicial ativa, de acordo com o Monitor RGF-BizDoc, com dados da Receita Fede-ral e dos Tribunais de Justiça. Isso representa um aumento de 6,2% no número de empresas em recuperação em relação a 2025.

O maior avanço registrado está entre as empresas menores. Entre o primeiro trimestre de 2023 e o segundo trimestre de 2026, o número de microempresas em recuperação judicial cresceu 133%, mas a alta entre as empresas médias e grandes também foi expressiva, com respectivamente, 31% e 69%.

No agronegócio, considerado um dos principais motores e pilares da economia brasileira, respondendo por cerca de 23% a quase 30% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, a situação também não é diferente. Os pedidos de recuperação judicial bateram recordes recentes, impulsionados por quebras de safra, queda nos preços das commodities e juros elevados.

Dados da Serasa Experian mostram que o setor registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial em 2025, o maior volume da série histórica iniciada em 2021. O número representa um aumento de 56,4% em relação a 2024, quando foram contabilizados 1.272 pedidos. Em 2023, haviam sido 534 solicitações, o que evidencia uma escalada acelerada nos últimos anos. Além disso, a inadimplência também cresceu. No terceiro trimestre de 2025, 8,3% da população rural estava inadimplente, de acordo com o levantamento.

As dificuldades encontradas por essas empresas, de diferentes setores da economia, expõem a fragilidade de um país submetido a juros elevados, que também agrava o endividamento das famílias, reduz o consumo e alimenta um ciclo perigoso: as vendas perdem força, o caixa das empresas encolhe e as dívidas se tornam mais difíceis de pagar. Isso sem mencionar as empresas estrangeiras, em sua maioria, chinesas, que pressionam o varejo tradicional brasileiro com produção altamente tecnológica e custos operacionais menores.

O denominador comum deste cenário é um só o endividamento excessivo. Há mais de quatro anos, a taxa básica de juros permanece em dois dígitos e está, atualmente, em 14% anuais.  Com esse ambiente hostil, renovar empréstimos, obter novas linhas de crédito se torna difícil e uma dívida administrável pode rapidamente virar uma ameaça à sobrevivência da empresa. Até quando as empresas e o próprio brasileiro irão conviver com esta alarmante situação?

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