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Trilhos abandonados

A Companhia Paulista de Estradas de Ferro, cujos trens de passageiros ou de cargas, faziam parada na estaรงรฃo de Torrinha, era um modelo de organizaรงรฃo empresarial. A gente acertava o relรณgio de casa ou do bolso pelo apito do trem quando deixava a estaรงรฃo.ย  Era de uma pontualidade para orgulhar qualquer empresa que prestasse serviรงo pรบblico de qualidade. E havia o costume de irem passear na estaรงรฃo moรงas e moรงos para ver a passagem dos trens de passageiros.
A CPEF era organizaรงรฃo perfeita, ao ponto de Monteiro Lobato escrever no prefรกcio de um de seus livros: se quisermos botar ordem e eficiรชncia nos serviรงos pรบblicos do Brasil รฉ sรณ deixar para a Paulista administrar. Assim se designava โ€œa Paulistaโ€ para a ela se referir. Funcionรกrios devidamente uniformizados tanto nas estaรงรตes como a bordo dos trens.ย  No carro restaurante sรณ se podia entrar de terno e gravata.
Depois da desapropriaรงรฃo das aรงรตes da Paulista pelo governo do Estado de Sรฃo Paulo, tudo mudou.ย  E, claro, para pior. Os trens de passageiros desapareceram. Os de carga que ainda passam pela velha Estaรงรฃo de Torrinha envergonham qualquer um. ร‰ a Rede Ferroviรกria Federal assumindo um serviรงo de transporte de cargas, em vagรตes velhos, todos aos pedaรงos, rabiscados por fora, os maquinistas ร s vezes sem camisa nos dias de muito calor, espetรกculo desolador num paรญs jogado ร s traรงas nestes dias tristes destes รบltimos anos.
O Brasil, diz nota recente de jornal, โ€œnรฃo usa quase um terรงo de seus trilhos ferroviรกrios, alรฉm de deixar apodrecer boa parte da pouca estrutura que possui nessa รกreaโ€. Segue a nota: os dados da Agรชncia Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) apontam que โ€œdos 28.218 kms. da malha ferroviรกria, 8,6 mil kms.ย  โ€“ o equivalente a 31% – estรฃo completamente abandonados e deteriorados, ou seja, sรฃo trilhos que nรฃo poderiam ser usados, mesmo que as empresas quisessemโ€. (cf. Folha de S. Paulo, ed. de 07/06/2018, matรฉria assinada por Andrรฉ Borges, de Brasรญlia). Essa matรฉria tem, entre outras informaรงรตes entristecedoras, os seguintes nรบmeros: no Brasil 63% do transporte de cargas sรฃo feitos por rodovias; 21% sรฃo transportadas por ferrovias; 13% por hidrovias; 3% por estruturas de dutos. Tais dados mostrados pela Folha de S.Paulo, em 7 de junho passado, como acima referido, apontam para esta triste realidade: no ano de 2017 somente 6,5% dos investimentos pรบblicos do governo foram destinados โ€œao setor logรญsticoโ€; as rodovias receberam 85% do total investido.ย  โ€œAplausosโ€ ao capital estrangeiro: petrรณleo, pneus, montadoras de veรญculos automotores, etc. etc. Enquanto isso, na Europa hรก sรฉrios planos para investimento no transporte rodoviรกrio: 28 bilhรตes de euros nos prรณximos anos.
E nรณs continuaremos a ser uma colรดnia, โ€œgigante pela prรณpria naturezaโ€, pois o โ€œgiganteโ€ precisa ainda despertar de um sono inteiramente impatriรณtico e comprometido.