O acordo entre União Europeia e Mercosul é, por si só, uma peça de arqueologia diplomática: negociado por mais de duas décadas, atravessou mudanças de governo, ciclos econômicos e reviravoltas ideológicas. Por muito tempo, pareceu destinado a permanecer como promessa – útil como símbolo, insuficiente como política.
O que muda agora não é apenas o texto; é o ambiente internacional. A retomada de tração deve ser lida à luz de uma reorganização do sistema comercial, em que regras gerais perdem centralidade e a barganha retorna com menos pudor. Nesse quadro, a política norte-americana recente, catalisada por Donald Trump, atuou como acelerador de um processo mais amplo: a passagem de uma ordem mais “institucionalizada” para outra mais multicêntrica, com maior peso do regionalismo e da negociação sob pressão.
A hipótese é simples: quando a potência líder sinaliza que pode relativizar compromissos e tratar o comércio como instrumento de disputa, os demais atores buscam reduzir vulnerabilidades. Isso cria um incentivo para que a UE “feche” acordos pendentes com blocos relevantes, não por convicção liberal, mas por cálculo: diversificar mercados, assegurar fornecimentos, ganhar resiliência e espaço normativo. Trata-se de realpolitik econômica.
Esse movimento, contudo, gera uma ambiguidade. A erosão de regras multilaterais que abre janelas para acordos regionais também eleva a incerteza e estimula posturas defensivas. O acordo EU-Mercosul ganha impulso num cenário em que o comércio volta a operar como extensão explícita do poder. Isso pode favorecer o Brasil – mas não por automatismo, nem sem custos.
Do lado das oportunidades, há ganhos evidentes. Primeiro, acesso preferencial ao mercado europeu pode ampliar margens de exportação e incentivar diversificação. Segundo, a previsibilidade tarifária e as regras de origem podem estimular investimentos e reorganização de cadeias produtivas, sobretudo onde o Brasil já tem base industrial e capacidade tecnológica. Terceiro, a própria assinatura reforça o país como parceiro “grande” num mundo em busca de fornecedores confiáveis de alimentos, energia e insumos industriais.
Há também um efeito político: num ambiente multicêntrico, acordos funcionam como instrumentos de autonomia relativa. Reduzir dependências e preservar margem de manobra é um objetivo racional. O acordo pode ser um dos pilares dessa estratégia, desde que não seja tratado como substituto de política industrial, mas como condicionante que exige adaptação.
É aqui que entram os perigos, que não são acessórios. O primeiro é institucional: entre anúncio, assinatura e entrada em vigor há um percurso longo, com arenas de veto relevantes. Na UE, o tema é sensível, especialmente para a agricultura, competição percebida e disputa ambiental. A ratificação pode reabrir conflitos hoje apenas administrados. A política raramente termina na caneta; frequentemente começa ali.
Há ainda o risco geopolítico do próprio ambiente que impulsionou a retomada: uma ordem multicêntrica é também uma ordem de pressão cruzada, com exigência de alinhamento, padrões tecnológicos e compromissos implícitos. O Brasil precisa preservar espaço para negociar com vários centros, sem ser empurrado para uma “escolha forçada”.
O acordo UE-Mercosul, portanto, deve ser visto como oportunidade condicional. Pode ampliar mercados, atrair investimentos e reforçar autonomia relativa. Mas também aprofundar assimetrias, travar em ratificações e impor custos regulatórios. O caminho é longo, e o resultado dependerá menos de slogans e mais de negociação, desenho de transição e política doméstica consistente. Num mundo em que o comércio voltou a ser linguagem de poder, ingenuidade é um luxo caro.













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