Editorial

1 ano do 8 de janeiro

ย  ย Na segunda (8) de janeiro, completou um ano dos atos que ficaram conhecidos como ataque aos Trรชs Poderes e ร  democracia, em Brasรญlia (DF).
ย  ย Para relembrar o ocorrido, foi realizado um evento no Congresso Nacional, que reuniu o presidente da Repรบblica, Luiz Inรกcio Lula da Silva, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), do Supremo Tribunal Federal, Luรญs Roberto Barroso, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes e o procurador-geral da Repรบblica, Paulo Gonet. Intitulado “Democracia Inabalada”, o ato teve como objetivo reafirmar a importรขncia e a forรงa da democracia brasileira e restituir ao patrimรดnio pรบblico, de maneira simbรณlica, alguns itens depredados durante a invasรฃo.
ย  ย Eram esperados cerca de 500 convidados, porรฉm, o evento teve ausรชncias de governadores e parlamentares alinhados ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), nรฃo contou com a presenรงa do presidente da Cรขmara, Arthur Lira (PP-AL), e de quatro ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Deputados e senadores de partidos de oposiรงรฃo ao governo tambรฉm faltaram em massa ร  solenidade.
ย  ย O lรญder do governo no Congresso Nacional, senador Randolfe Rodrigues (sem partido-AP), afirmou que a ausรชncia de parlamentares de oposiรงรฃo foi โ€œlamentรกvelโ€.
ย  ย Alรฉm disso, neste episรณdio de 1 ano dos ataques foi possรญvel visualizar, de maneira reveladora, a disputa entre duas visรตes divergentes sobre o simbolismo daqueles atos. As duas pautadas, evidentemente, na polarizaรงรฃo entre o petismo e o bolsonarismo, e que, claro, serรฃo exploradas para fins eleitorais nas eleiรงรตes municipais deste ano.
ย  ย De um โ€œladoโ€, o governo Lula descreve os atos de 8 de janeiro como uma tentativa fracassada de golpe de Estado. O presidente enfatizou em seu discurso que todos aqueles que financiaram, planejaram e executaram a tentativa de golpe devem ser โ€œexemplarmenteโ€ punidos. โ€œNรฃo hรก perdรฃo para quem atenta contra a democracia, contra seu paรญs e seu prรณprio povo. O perdรฃo soaria como impunidade, e a impunidade como salvo-conduto para novos atos terroristas no nosso paรญsโ€, disse. Assim, seu grupo polรญtico รฉ posicionado como os guardiรตes da democracia.
ย  ย Mas, a mobilizaรงรฃo que marcou o aniversรกrio da derrota do โ€œgolpismoโ€ acabou sendo, majoritariamente, restrita a membros do governo, de sindicatos e organizaรงรตes de esquerda ligadas ao PT e ao PSOL.
ย  ย De outro lado, hรก a direita bolsonarista buscando minimizar sua possรญvel ligaรงรฃo aos atos de 8 de janeiro, alรฉm de fazer esforรงos para transformar a puniรงรฃo aos vรขndalos e seus mentores em demonstraรงรตes de que o grupo sofre perseguiรงรฃo polรญtica. Tambรฉm jรก tentaram provar que o governo Lula foi intencionalmente conivente com os ataques em Brasรญlia e, atรฉ mesmo, que a violรชncia havia sido incitada por membros da esquerda infiltrados.
ย  ย Depois, a narrativa bolsonarista se direcionou ao fato de o 8 de janeiro nรฃo merecer a classificaรงรฃo de ato golpista, pois nรฃo contou com apoio do Legislativo, do Judiciรกrio ou sequer das Forรงas Armadas. Houve atรฉ um vereador de Porto Alegre, em marรงo do ano passado, que propรดs um projeto que instituรญa o 8 de janeiro como o โ€œDia do Patriotaโ€ na cidade. Virou lei, mas foi revogada meses depois. Ainda foi divulgada, na sexta (5), nota de repรบdio de 30 senadores de oposiรงรฃo ao ato convocado por Lula.
ย  ย Contudo, a disputa pela narrativa mais apropriada para definir o que foi o 8 de janeiro estรก sรณ comeรงando. A retรณrica โ€œperfeitaโ€ ainda serรก disputada e impulsionarรก o inรญcio da corrida eleitoral. Um recado, talvez ignorado por ambos os lados, foi que o marco do 1 ano dos ataques praticamente nรฃo contou com a presenรงa efetiva da populaรงรฃo brasileira. Talvez, por estar esgotada de ter que se posicionar de um lado ou de outro, obrigatoriamente, e assim, continuar sendo massa de manobra de interesses polรญticos eleitorais.