Editorial

A volta da censura

ย  ย No dia 6 de dezembro, o Judiciรกrio chamou para si a autoridade de responsabilizar um veรญculo de imprensa por afirmaรงรตes de terceiros. O juiz Josรฉ Eulรกlio Figueiredo de Almeida, da 8ยช Vara Cรญvel de Sรฃo Luรญs (MA), determinou a exclusรฃo de duas reportagens do jornal O Estado de S.Paulo sobre a retransmissoras de TV concedidas pelo ministro das Comunicaรงรตes, Juscelino Filho, a uma emissora ligada ao grupo polรญtico dele no Estado do Maranhรฃo.
ย  ย Ainda foi exigido, na sentenรงa, que os trรชs jornalistas autores das reportagens assinassem uma carta de retrataรงรฃo redigida pe-la autora da aรงรฃo, a TV Difusora do Maranhรฃo por โ€œinformaรงรตes falsasโ€ e em tom aconselhador, escreveu: โ€œAinda quando seja verdadeira a notรญcia, esta deve ser divulgada sem exageros, sem embustes, sem tendenciosidade e sem afrontaโ€.
ย  ย Felizmente, a afronta ร  liberdade de expressรฃo e de imprensa durou pouco. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin restabeleceu o direito ร  liberdade ao Estadรฃo. No entendimento de Zanin, a decisรฃo โ€œutiliza-se de argumentos genรฉricos, sem justificar suficientemente o motivo da restriรงรฃo ร  liberdade de imprensaโ€. Alรฉm disso, โ€œnรฃo hรก informaรงรฃo nos autos de que a notรญcia seja falsa ou sabidamente maliciosaโ€, afirmou o ministro.
ย  ย Zanin ainda argumentou que o ocorrido โ€œmanifesta restriรงรฃo ร  liberdade de expressรฃo no seu aspecto negativoโ€ e que a determinaรงรฃo de retirada das matรฉrias jornalรญsticas do ar demonstra โ€œevidente obstruรงรฃo ao trabalho investigativo inerente ร  imprensa livre, alรฉm de caracterizar embaraรงo ao repasse das informaรงรตes ร  opiniรฃo pรบblicaโ€.
ย  ย Desta vez a censura nรฃo durou muito, mas jรก houve outro episรณdio em que ela teve longa duraรงรฃo. Em 2009, o Estadรฃo foi proibido pelo Tribunal de Justiรงa do Distrito Federal (TJDF) e dos Territรณrios (TJDFT) de publicar informaรงรตes sobre a Operaรงรฃo Boi Barrica. Trata-se de uma investigaรงรฃo policial que envolvia o empresรกrio Fernando Sarney, filho do ex-presidente Josรฉ Sarney. Na ocasiรฃo, a censura durou 3.327 dias.
ย  ย Recentemente, no final de novembro, o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu por 9 votos a 2 que empresas jornalรญsticas, de qualquer natureza, podem ser responsabilizadas civilmente por falas de entrevistado, havendo indรญcios concretos da falsidade de imputaรงรฃo e se o veรญculo deixou de observar o dever de cuidado na verificaรงรฃo da veracidade dos fatos. A Corte definiu a tese fixada na anรกlise de uma aรงรฃo que trata de uma entrevista publicada em 1995 pelo jornal Diรกrio de Pernambuco.
ย  ย Na reportagem, Ricardo Zarattini Filho (1935-2017) foi acusado por um entrevistado de ter participado de um ataque a bomba em 1966 que deixou 3 mortos no aeroporto de Guararapes. Zarattini foi militante do PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionรกrio) e deputado federal pelo PT de Sรฃo Paulo. Ele รฉ pai do atual deputado federal Carlos Zarattini (PT-SP). A tese vedaria a censura prรฉvia, mas admite a retirada de conteรบdo caso publicadas โ€œinformaรงรตes comprovadamente injuriosas, difamantes, caluniosas e mentirosasโ€.
ย  ย O jornalismo profissional jรก tem como dever a apuraรงรฃo das informaรงรตes e a aferiรงรฃo das declaraรงรตes dos entrevistados, que nรฃo devem atentar contra a verdade, para assim, assegurar a qualidade do conteรบdo publicado e salvaguardar a prรณpria credibilidade. ร‰ preciso indissolubilidade ao rigor รฉtico.
ย  ย Contudo, a partir desta tese, o risco que se abre รฉ imenso. O STF ao dar alcance geral a um julgamento que deveria se limitar a um caso isolado e atรญpico, abriu uma porteira ameaรงadora e perigosa. ร‰ a censura batendo nas portas das redaรงรตes para provocar uma onda de medo e atรฉ mesmo autocensura em matรฉrias, reportagens e conteรบdos ao vivo.