Editorial

Polarização até no Oscar

A polarização político-partidária chegou a níveis alarmantes no Brasil. O país esteve representado na cerimônia do Oscar que, aconteceu, no domingo (15) em Los Angeles, Estados Unidos. O filme brasileiro “O Agente Secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho, concorreu nas categorias de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Elenco e Melhor Ator pela performance de Wagner Moura, porém perdeu em todas as categorias e o Brasil voltou para casa sem estatuetas.
Trata-se da sexta indicação do Brasil ao prêmio de Melhor Filme Internacional. A primeira ocorreu em 1963, com o filme “O Pagador de Promessas”. Já em 1996, com “O Quatrilho” e, em 1998, com “O Que É Isso, Companheiro?”, que conta com Selton Mello e Fernanda Torres no elenco, assim como “Ainda Estou Aqui”.
Em 1999, houve as indicações para “Central do Brasil” e para Fernanda Montenegro em Melhor Atriz. 26 anos depois, Walter Salles teve novamente um filme indicado e foi a vez da filha de Montenegro tentar a mesma categoria que a mãe concorreu e vencer. Assim, em 2025, o longa “Ainda Estou Aqui”, dirigido por Walter Salles e que retrata a ditadura militar e a luta de Eunice Paiva, saiu vitorioso na categoria de Melhor Filme Internacional.
A derrota do País na maior premiação do cinema mundial não deveria ser celebrada pelos próprios brasileiros, mas foi. No domingo (15), a derrota do “O agente secreto” e do ator Wagner Moura no Oscar foi comemorada por um grupo de criadores de conteúdo de direita, durante uma transmissão ao vivo realizada no YouTube, maior plataforma de vídeos online do mundo.
A live denominada “Oscar anti-lacração” foi organizada por um canal virtual e contou com a participação do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), por meio de um vídeo exibido durante o programa. No conteúdo, Nikolas criticou o que chamou de “uso político da arte” e comentou a indicação de Wagner Moura ao prêmio, afirmando que torceria contra o ator. Durante a live, os participantes também incentivaram espectadores a usar a hashtag #todoscontraWagnermoura no chat da transmissão.
Os participantes ainda criticaram o financiamento da cultura no Brasil. Em diferentes momentos da transmissão, foi sugerido que produções como “O agente secreto” seriam beneficiadas por incentivos públicos e patrocínios ligados a políticas culturais e projetos alinhados a determinadas posições ideológicas.
Após o resultado da categoria a qual o filme nacional concorria ter sido anunciado e Wagner Moura não ter vencido a premiação, os participantes reagiram com deboche e ironia, celebrando com gestos de vitória, vestidos com a camisa da Seleção Brasileira e levantando a bandeira do Brasil. Em um dos momentos finais da transmissão, um dos participantes simulou erguer um troféu. “E agora eu vou fazer o gesto que o Wagner Moura não conseguiu fazer: erguer o meu prêmio!”, ironizou, usando uma réplica da estatueta.
A presença brasileira com quatro indicações (Melhor Filme, Filme Internacional, Ator para Wagner Moura e Seleção de Elenco) na maior premiação do cinema mundial deveria ser celebrada e vista como um fortalecimento do cinema nacional e sua projeção internacional e não ser comemorada a derrota do próprio País, por associações indevidas a polarização política no Brasil, onde a cultura e o cinema acabam se tornando parte da disputa ideológica.
É inadmissível que a bandeira do Brasil seja levantada para celebrar a derrota do País, seja em qual âmbito for. É preciso dar um basta a propagação do ódio motivada por interesses políticos e eleitorais. O Brasil não irá para frente se continuar insistindo no erro da divisão social odiosa movida por lados políticos.

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