Leitores das minhas crรดnicas semanais da Folha…
Minha mรฃe Odette Tavares Bellinghausen faleceu em 14 de outubro de 1995. Neste mรชs, mexendo em uns papeis dela que guardei, pois, a maioria de sua documentaรงรฃo foi doada para o Serviรงo de Memรณria de S. B. do Campo, encontrei alguns artigos que ela escreveu aqui para a Folha em 1986, que conta um pouco sobre a vida de meus bisavรณs. Vejam bem, nรฃo quero retratar aqui minha famรญlia, mas sim como era vida em S. Bernardo nos tempos antigos. Foi escrito com toda a veia poรฉtica de minha mรฃe. Acredito que vocรชs vรฃo gostar. Os artigos se estenderรฃo por algumas semanas, aproveitando o tempo de minha ausรชncia, por motivo de uma visita ร minha sobrinha Gigi que mora nos Estados Unidos.
Se deliciem… Um abraรงo, Didi
Imaginem uma casa simples, pequena, branquinha, entre รกrvores, flores, animais e hortaliรงas… na parte da frente, alguns pinheiros lembram a pรกtria distante, a Alemanha… Intercaladas algumas palmeiras, da nova pรกtria, o Brasil! E os manacรกs perfumosos, pintalgados de roxo; os cipรณs de Sรฃo Joรฃo, cor de fogo; os junquilhos europeus, de odor suave; os lรญrios e as angรฉlicas de perfume inebriante; as singelas margaridas; as papoulas sanguรญneas, as hortรชncias azul-celeste… A flor de cera enroscada no tronco de um coqueiro, com suas flores de veludo cor-de-rosa, em umbela, com a estrelinha rubra ao centro. E os amores perfeitos? Pareciam caretinhas de crianรงas, roxos, amarelos, brancos, vermelhos, azuis…
Mas o canteiro dos cravos รฉ que era uma beleza! Brancos, vermelhos, rosados, amarelos. Mas os mais lindos eram os cravos-chita: brancos, pintalgados de vermelho ou grenรก, amarelos, rajados de grenรก ou de cor de laranja. Na cerca de ripas, as trepadeiras se entrelaรงavam, num delirio de cores e perfume: – as rosas chorรฃo, os jasmins de armar, as glicรญnias lilazes.
ร madrugada; o sol jรก vem aparecendo lรก embaixo, na Vila Silva. Os galos cantam, respondendo uns aos outros, numa barulhenta conversa de quiqui-ri-quis รฉ co-co-ro-cรณs. Oma, (vovรณ), em alemรฃo) Gutbier jรก comeรงou a sua lida, que sรณ vai terminar ao anoitecer. As vacas jรก estรฃo mugindo, estรก na hora de ordenhรก-las. Katharina Gutbier jรก vem trazendo os baldes limpinhos para tirar o leite das vacas. mรบuu…muuรบ… Ela aperta as tetas das vaquinhas e o leite jorra, grosso e puro. Kate chama o neto, que mora em frente: – Albert! Albert! E o menino de 8 anos, loiro, de olhos azuis, espigado, alto para sua idade, vem correndo. Ele รฉ o ajudante da avรณ, entrega o leite, os ovos, os doces, as verduras, frutas… Coloca os alforjes nos ombros, 8 ou 10 litros de leite nas divisรตes dos dois lados, e lรก vai, pelos atalhos do velho Sรฃo Bernardo, com um pouco de medo, pois ainda estรก meio-escuro. Hรก cobras pelos matos e ร s vezes aparecem gatos silvestres e mesmo oncinhas.
Mas Alberto gosta mesmo รฉ de ver os passarinhos que existem ร s centenas, aos milhares nas matas de Sรฃo Bernardo. Nรฃo os prende em gaiolas, jรก tem viveiro relativamente grande para criรก-los, soltando-os quase sempre depois.
A velha Guta continua a sua faina: tratar as galinhas, os patos, os gansos, mais tarde, recolher os ovos, colher frutas, fazer doces e gelรฉias, fazer pรฃo, manteiga e queijo; tratar da casa, cozinhar, lavar a roupa, passรก-la com o pesado ferro a carvรฃo. Os doces e gelรฉias eram feitos no fogรฃo ร lenha, sobre o qual havia sempre um grande bule de cafรฉ quentinho. No forno tambรฉm sempre quente, eram assados os โkuchenโ, os pรฃes de milho, centeio ou trigo integral, que os alemรฃes tanto apreciavam, como hoje tambรฉm.
(Continua)
Divanir Bellinghausen Coppini (Didi) รฉ escritora e voluntรกria em Sรฃo Bernardo – e-mail: dibelligh@yahoo.com.br













