Editorial

Saúde brasileira na UTI

O caso dos três técnicos de enfermagem, que foram presos sob a suspeita de terem assassinado três pacientes, que estavam internados em um hospital onde eles trabalhavam no Distrito Federal, administrando medicamentos na veia das vítimas, provocando paradas cardíacas fatais, só traz um alerta a situação crítica da Saúde nacional, seja pelo sistema público ou privado.
O País registrou, em 2024, um aumento expressivo nos processos judiciais relacionados a erros médicos, com um crescimento de 506% em relação a 2023. Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) apontam 74.358 ações em 2024, contra 12.268 em 2023. Estes processos são referentes a danos morais ou materiais, termos que passaram a ser usados pelo sistema judiciário em problemas decorrentes da prestação de serviços de saúde.
Dentro do sistema público de saúde, as ações por danos morais chegaram a 10.881, enquanto as relacionadas a danos materiais atingiram 5.854. Nos serviços de saúde privados, os números quase triplicam, com 40.851 processos por danos morais e 16.772 por danos materiais. Em média, foram registrados 203 processos por erro médico por dia em 2024.
Entre janeiro e maio de 2025, foram registrados 37.170 casos de erros médicos no país. Atualmente, existem 153.993 processos pendentes e 31.119 casos já julgados. Em 2024, o número de processos aumentou em 506%, totalizando 74.358 ações judiciais.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de um a cada dez pacientes no mundo sofram danos em cuidados de saúde, resultando em 3 milhões de mortes anuais devido a cuidados inseguros. Entre os fatores que contribuem para esses danos estão erros de medicamentos, cirúrgicos e de diagnóstico, além de infecções associadas ao ambiente hospitalar.
No Brasil, o Instituto de Estudos de Saúde Suplementar revelou que, em 2017, seis mortes por hora foram registradas em hospitais públicos e particulares devido a erros. Ainda de acordo com a pesquisa, 30% a 36% dos óbitos decorrentes de eventos adversos graves poderiam ser evitados, o que resultaria na redução do sofrimento dos pacientes, na diminuição dos custos assistenciais e no aumento da disponibilidade de leitos hospitalares.
Recentemente, uma paciente do ABC se submeteu a uma tomografia computadorizada no Hospital Brasil, em Santo André, e se surpreendeu com a “sugestão” no laudo das imagens com o diagnóstico de tuberculose. Dois médicos de São Bernardo, conhecidos e antigos na área da Pneumologia, acreditaram no laudo e prescreveram uma dezena de exames, inclusive de escarro, por diversos dias consecutivos para a paciente, que estava assintomática. Todos deram negativo para a tuberculose. Então, foi solicitado que a paciente se internasse para fazer uma broncoscopia com biópsia para investigar um possível tumor nos pulmões. A paciente, então, teve que procurar um terceiro médico, desta vez, na Capital, para descobrir que nada tinha.
Além dos erros médicos, há denúncias sobre hospitais focados, inclusive da região do ABC, excessivamente, em bater metas de cirurgias, muitas vezes em detrimento da qualidade do atendimento, segurança do paciente ou ética médica, que frequentemente são associadas a fraudes, superfaturamento ou pressões sobre equipes médicas. Recentemente, o programa Fantástico, da Rede Globo, investigou denúncias contra uma empresa responsável por administrar a ala ortopédica em hospitais públicos de três estados brasileiros. A reportagem do programa teve acesso a documentos que comprovavam superfaturamentos e cirurgias desnecessárias.
Se essa lamentável situação da saúde brasileira, seja pelo sistema público ou privado, continuar, o comentário antigo e arcaico: “Se puder evitar, não vá ao médico ou a o hospital”, será o melhor conselho aos que quiserem permanecer vivos.

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